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FNE / Jornal / Edição 25 - Jun/04 / Ousadia contra a pasmaceira

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Ousadia contra a pasmaceira

Rita Casaro

O governo deve abandonar os dogmas econômicos conservadores e impulsionar o desenvolvimento se não quiser continuar na “pasmaceira”, que encolhe o PIB (Produto Interno Bruto) e empobrece a população. A opinião é do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, que defende a volta das grandes obras como forma de gerar emprego e renda, além de garantir a infra-estrutura adequada ao País. “Não há perspectiva se não tivermos o mínimo de coragem”, diz o professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), em entrevista ao Engenheiro.

O que impede o Brasil de retomar o tão ansiado crescimento econômico?

Temos hoje dois constrangimentos fatais para a economia brasileira. Um deles é a dívida pública, a questão fiscal que faz com que o Governo não tenha dinheiro para gastar. Outro é a política monetária, ou seja, a taxa de juros. A grande ilusão do Governo Lula foi achar que a continuidade daquelas políticas de conquista da credibilidade, de acalmar os mercados poderia funcionar. Isso se funda numa incompreensão – para ser generoso – do funcionamento dos mercados e do que estava acontecendo em 2003. Os benefícios que obtivemos deveram-se a fatores externos à economia brasileira. A entrada maciça de dinheiro foi conseqüência da política monetária estadunidense, baseada em oferecer juros baixíssimos para enfrentar a recessão. Isso melhorou os indicadores financeiros e o Brasil deu uma de cigarra.

O que deveria ter sido feito?

Obstinado em reduzir a inflação, o Governo deixou o real se valorizar. Não constituiu reservas para se precaver diante de uma mudança no cenário internacional, que era óbvia e veio com a ameaça de aumento dos juros nos Estados Unidos. Agora, enfrentemos essa turbulência que não vai passar tão cedo.

E estamos em maiores apuros.

Essa situação de vulnerabilidade nos deixa nas mãos do Fundo Monetário Internacional.Há obstáculos ao crescimento também pela retração do investimento privado. Nos últimos seis anos, parte da renda dos brasileiros evaporou por conta do desemprego e da precarização do mercado de trabalho. Isso torna difícil a recuperação, porque uma parcela da população que seria candidata a adquirir bens duráveis não tem poder de compra. Começamos a crescer e paramos porque tem que subir a taxa de juros, essa sobe porque tem que deixar o câmbio flutuar... Você já teve esse sonho, em que corre para ficar no mesmo lugar? No caso do Brasil, é a realidade.

Como sair do atoleiro, então?

Precisamos do investimento público. Nos anos 70, era 11% do PIB, hoje é menos de 2%. Aqui, criou-se essa história de que a grande obra é ruim, mas ela é muito boa para gerar emprego. Isso é coisa dos liberais brasileiros, que são cretinos fundamentalmente. Apesar da crise dos anos 80, o desemprego na época não passou de 4%, porque o velho e bom investimento público segurava as pontas. Daqui a uns 20 anos, vamos descobrir que inflação com indexação não era tão ruim.

Falar em inflação mais alta tornou-se heresia. É razoável pensar assim?

Não se trata de escolher entre controle inflacionário e crescimento. Não é possível reduzir a inflação brasileira aos níveis internacionais, inclusive devido à nossa fragilidade externa. Para crescermos, talvez seja necessário admitir uma taxa mais alta.

E contar com gastos públicos?

O Brasil tem uma demanda potencial em infra-estrutura enorme. Se destravar os gastos públicos, pode criar um horizonte de investimentos e oportunidades muito favorável. O Estado precisa definir seu papel, abrir as áreas corretas ao setor privado e regulamentar essa participação. Os investimentos em infra-estrutura podem ser a chave para recuperar o emprego e a renda. Além disso, o coeficiente de importações é pequeno.

Diante dos constrangimentos que o senhor citou, há espaço para essa mudança de atitude?

É preciso dissipar a névoa conservadora. Há dificuldades reais, mas em algum momento precisaremos enfrentar as restrições impostas pelo mercado. O Governo precisa assumir esse risco ou continuaremos nessa pasmaceira. Não significa chutar o balde. A mudança precisa ser bem articulada. Mas no caminho em que estamos, não chegaremos a lugar algum – apenas ao encolhimento da economia brasileira, empobrecimento progressivo, desânimo do empresariado. Não há perspectiva se não tivermos o mínimo de coragem.

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