FNE - Federação Nacional dos Engenheiros

FNE / Jornal / Edição 42 - Nov/05 / De olho no que entra no seu carro

Eventos

Debate no Amapá
10 Set - 10 Set

Debate RedeTV!
12 Set - 12 Set

Conselho CT&I SP
16 Set - 16 Set


Enquete



De olho no que entra no seu carro

Soraya Misleh

Ter dores-de-cabeça com a má qualidade do combustível não é incomum no Brasil. E o problema não tem diminuído. Pelo contrário, em amostras analisadas pela ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) em setembro, verificou-se aumento dos índices de não-conformidade para óleo diesel, gasolina e álcool. Mercados com grande consumo de combustível, São Paulo e Rio de Janeiro, por exemplo, são considerados críticos. Alterações também foram observadas em diversos outros estados, como Alagoas, Rondônia, Pernambuco, Pará, Sergipe, Minas Gerais e Bahia. Diante desse cenário, um equipamento relativamente simples promete maior segurança aos consumidores na hora de abastecer seus veículos. Trata-se de detector de combustível adulterado, denominado Total Quality.

Ainda um protótipo, foi desenvolvido por Marcelo Ribeiro Faria, membro da ANI (Associação Nacional dos Inventores), e é apresentado em duas versões: interna, para instalação no automóvel, e portátil, para checagem do produto, por exemplo, em postos de abastecimento. A criação custou ao inventor R$ 300,00 no primeiro caso e R$ 100,00 no segundo. Segundo ele, a tecnologia propicia a medição da condutividade do combustível. “O bom tem um valor x. Se estiver acima ou abaixo, está adulterado.” O mecanismo adotado permite que se verifique inclusive se houve alteração por solvente, diferentemente do densímetro, que não tem esse alcance. Tal instrumento – o qual obrigatoriamente tem que ser encontrado em todos os postos, conforme determina a ANP – mede a concentração de álcool na gasolina ou de água no álcool. Portanto, é capaz de detectar se tais produtos estão dentro das normas ou ultrapassaram o permitido, o que se constitui na principal desconformidade verificada atualmente em postos no País, segundo a Assessoria de Imprensa do Recap – Sindicato do Comércio Varejista de Derivados de Petróleo de Campinas e Região. A despeito disso, Faria observa: “Nem todos os frentistas sabem fazer o teste com esse instrumento.” De acordo com ele, sua invenção resolve também esse problema, já que o equipamento é bastante simples, não exigindo treinamento específico para ser manuseado.

O mecanismo

Ambos os modelos que criou funcionam a partir de um sensor elétrico que consegue constatar, usando somente 20ml do líquido, se há alguma adulteração. São constituídos de uma pequena caixa onde há um botão para ligar e outro para dar início à avaliação. Em apenas dez segundos, garante o inventor, é possível fazer a análise precisa. “A tolerância é de 2%. Por exemplo, na gasolina, há acréscimo de 25% de álcool anidro (sem água). Se houver 27%, o equipamento consegue detectar.” O mesmo vale para solvente. Segundo ele, se tiver 2% de água raz ou querosene misturados, o aparelho aponta. Já excesso de água pode ser observado caso haja uma gota a mais, assegura Faria.

Na versão analógica, se a qualidade for boa, o ponteiro indicará a cor verde; se estiver em desconformidade com as normas, a laranja ou vermelha, conforme o produto misturado ao combustível. Na digital, opção ainda em desenvolvimento para instalação em veículos, a variação será numérica. A tecnologia é a mesma, mas nesse caso o sensor, ligado a um cabo cuja função é transmitir a informação para o aparelho no painel do carro, será colocado no tubo de alimentação que irá para o tanque de combustível. Ao começar a abastecer, destaca Faria, o consumidor terá o retorno sobre a qualidade do produto praticamente de imediato. Interrompendo-se o processo, o equipamento – informa o inventor, de fácil instalação, sem prejuízo ao funcionamento do veículo – desligará automaticamente.

Faria tem apresentado o protótipo a montadoras e indústrias de autopeças, na tentativa de vender a alguma delas a idéia para que desenvolvam o aparelho. Segundo lembra, sua adoção poderia evitar aborrecimentos, uma vez que o combustível adulterado pode não apenas fazer com que o carro comece a falhar, mas até fundir o motor.

Enquanto não há no mercado produto similar, o jeito é se precaver para minimizar os riscos de adquirir gasolina ou álcool de má qualidade. O Recap sugere alguns procedimentos para tanto. A primeira regra é desconfiar de preços muito abaixo da média de mercado. Segundo o sindicato, 80% da adulteração se verifica nesse nicho. Além disso, é recomendável escolher estabelecimento conhecido, pedir nota fiscal, procurar abastecer sempre no mesmo posto, observar se o local mantém visível a procedência do combustível, pedir o teste com densímetro se desconfiar da qualidade e, por fim, denunciar à ANP eventuais irregularidades. Isso seria fundamental para garantir a punição devida nesses casos. O que, ao que tudo indica, depende, muitas vezes, de tais manifestações, em especial num cenário como o brasileiro, no qual aparentemente faltam profissionais para a fiscalização efetiva – mesmo levando-se em conta o argumento da assessoria de imprensa da agência, de que a atribuição seria dividida com outros órgãos como Procon e Corpo de Bombeiros. Além deles, na ANP, são apenas 50 a desempenhar essa função, para um universo de cerca de 150 mil postos de abastecimento no território nacional.

Envie a um amigo