Os desafios do Parlamento em 2006
Os desafios do Parlamento em 2006
Antônio Augusto de Queiroz
As perspectivas do Congresso para 2006, se comparado com o desastre que foi 2005, serão positivas. Entretanto, os desafios a serem superados serão muitos. Os parlamentares terão que cortar na própria carne e retomar uma agenda positiva de interesse do País, sob pena de uma renovação recorde em outubro próximo.
Após contatos com as bases, deputados e senadores chegaram a Brasília com a exata dimensão da crise de imagem da instituição, a ponto de terem retomado o trabalho e com aprovação de matéria em plena segunda-feira, fato raro na história do Parlamento.
De fato, a tentativa de reeleição dos membros das mesas, a eleição de Severino Cavalcanti, a descoberta do mensalão e do mensalinho jogaram a imagem do Congresso no fundo do poço. A eleição de Aldo Rebelo e a cassação de José Dirceu melhoraram um pouco o quadro, mas a absolvição do deputado Romeu Queiroz (PTB/MG), que recebeu dinheiro do Valerioduto, e a convocação extraordinária pioraram tudo outra vez.
A saída para a crise passa por ações concretas, como a redução do recesso de 90 para 55 dias, o fim do pagamento extra, e, principalmente, a retomada dos processos de cassação e da agenda de votação, que inclui: a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que cria o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica), o projeto que desonera as pequenas e microempresas, a PEC que acaba com a verticalização nas eleições e a complementação da reforma do Judiciário.
Antônio Augusto de Queiroz é jornalista, analista político e diretor do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar)
Apego ao poder
José Carlos Rauen
O ano de 2005 foi profícuo em denúncias de todos os lados no mundo político. Foram tantas as comissões parlamentares de inquérito criadas que se torna difícil a quem não acompanhe diariamente os noticiários – caso da grande maioria do povo brasileiro – entender o que se passa. Nessa confusão, o que se evidencia é que, independentemente das denúncias, aqueles que estão longe do poder querem alcançá-lo, enquanto os que nele já estão instalados não querem largá-lo.
Aí eu me pergunto: quais os motivos que levam as pessoas a ascender ao poder? Quem me respondeu essa pergunta foi um político amigo meu dizendo que o poder público é incomparável ao poder privado. A recuperação financeira no serviço público é exponencialmente mais rápida. Ou seja, uma empresa privada, quando se encontra em dificuldades financeiras, para conseguir recuperação, necessita de variáveis que na maioria das vezes não são possíveis; já na empresa pública a recuperação vem com a ajuda de todos os lados (tanto privado como público). Eu mesmo desconheço uma empresa pública que fechou ou faliu por falta de recursos. E está exatamente aí o motivo da vontade de trabalhar no governo ou para o governo, não é necessária nenhuma “perspicácia” de negócios para administrar uma empresa pública, basta ser político. E isso eu acredito que todos sabem fazer muito bem, basta ter o poder na mão.
Ao assumir um cargo ou empresa pública, os poderes são tantos que o desejo é de jamais largá-lo. A exposição é tanta que é impossível ir a algum lugar e não ser reconhecido. Tomam-se decisões sem responsabilidades futuras, visto que essas nem sempre necessitam ser viáveis economicamente. Isso gera uma doença chamada “compulsão do poder”. E quem não consegue administrá-lo cuidadosamente apega-se a ele de tal forma que, quando sofre alguma queda, cai num buraco muito difícil de levantar. É a depressão da perda do poder. Quem perde por má administração tem muita dificuldade de se recuperar. Quem já teve o poder nas mãos e o perdeu sabe as seqüelas dessa doença. E a única recordação são as lembranças e as histórias contadas com glórias. Qual o remédio para isso? Não tem.
José Carlos Rauen é presidente do Senge-SC



