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FNE / Jornal / Edição 45 - Fev/06 / “Por uma frente antiimperialista”

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“Por uma frente antiimperialista”

Gilberto Maringoni

Aos 75 anos, o economista egípcio Samir Amin é, atualmente, um dos mais sólidos críticos da globalização neoliberal. Exibindo uma cabeleira branca e lisa, cortada na altura da nuca, nariz adunco e olhar penetrante, ele lembra a figura de uma esfinge. Consultor econômico de vários países africanos, é um intelectual eminentemente prático. Ao contrário das divindades ancestrais de seu país, Amin não busca criar enigmas, mas, ao contrário, decifrá-los. Autor de vasta obra – como “Desenvolvimento desigual” e “Dinâmica da crise global” –, também é membro da Coordenação do Fórum Social Mundial, cuja sexta edição aconteceu simultaneamente em Caracas (Venezuela) e Bamako (Mali). Foi justamente no final do encontro de Caracas que Samir Amin concedeu a seguinte entrevista a Engenheiro.

Fala-se muito numa “onda vermelha” na América Latina, com várias eleições dando vitória a candidatos de esquerda. Como o senhor vê isso?

Existe uma revolta mundial contra o capitalismo neoliberal, com especificidades e gradações em cada país. É possível que a expressão mais clara dessa insatisfação ocorra atualmente na América Latina. Até o começo dos anos 90, a crítica da globalização neoliberal estava confinada a pequenos círculos da intelectualidade. A partir de 1995, quando passou a ilusão inicial e as condições gerais de vida pioraram, como resultado das políticas de privatização, desregulamentação e redução do papel do Estado, a legitimidade do modelo foi colocada em xeque.

O senhor fala das grandes manifestações de Seattle e Cancun?

Exato. Respostas mais objetivas à situação começaram a aparecer e um número crescente de pessoas em todo o mundo passou a se mover. Essa gente tentava sair da defensiva e partir para uma posição ofensiva.

Quais outros sintomas dessa mudança?

Peguemos uma palavra: “socialismo”, por exemplo. Ela foi quase proibida por alguns anos, devido à ofensiva das idéias sobre a supremacia do mercado sobre todas as esferas da vida. Esse banimento desse e de outros conceitos durou, felizmente, pouco tempo. Ficou provado que o capitalismo não é o fim da história, como apregoava o acadêmico estadunidense Francis Fukuyama. Hoje, o capitalismo se mostra não apenas como explorador do trabalhador, mas como uma verdadeira ameaça à humanidade. As guerras imperiais, a ação predatória contra o meio ambiente e as armas nucleares são as faces mais agressivas de um sistema que perde legitimidade aceleradamente. Para controlá-lo, é necessário um poder imperial cada vez maior. O mundo pelo qual nos batemos deve ser baseado na solidariedade e na democracia. Para alcançá-lo, é urgente combater o projeto de dominação dos EUA.

Além da América Latina, onde mais essa revolta se manifesta?

Penso que essa situação se apresenta mais claramente aqui do que na África e na Ásia. Um dos fatores a possibilitar isso é o espaço democrático conquistado pelos povos, depois do ciclo das ditaduras militares. A situação de cada país é, contudo, diversa. Isso se deve a especificidades históricas, sociais , políticas e econômicas. No Brasil, temos uma burguesia local muito forte e o latifúndio apresenta poder real. Há muita ilusão, por parte do governo Lula, de que essa burguesia possa pender para o lado do povo. Um exemplo é o comportamento do Brasil, por pressão de suas camadas dirigentes, na reunião da Organização Mundial do Comércio, em Hong Kong. O país decidiu quebrar a frente dos países pobres e aliar-se, juntamente com a Índia, aos Estados Unidos. Não é à toa que o capital financeiro considera Lula um grande aliado. Na Venezuela, a situação é diversa. Ali existe uma burguesia vinculada ao petróleo, sem raízes na sociedade. Essas camadas, que mandavam no país, se desmoralizaram nos últimos 20 anos, abrindo espaço para um governo como o de Chávez. Na África, os governos são muito fracos e vulneráveis. Contudo, apesar de os países do continente serem muito dependentes da Europa, muitas reformas estão sendo feitas. Boa parte das nações africanas tem posições melhores que as do governo brasileiro no âmbito internacional.

O senhor propôs, há poucas semanas, num encontro em Bamako, uma nova dinâmica para os fóruns sociais mundiais. Do que se trata?

Os fóruns são parte de um processo maior, que é a luta contra o neoliberalismo. São pontos de encontro daqueles que protestam e buscam soluções. Todos devem respeitar aqui as opiniões diferentes, pois todos são iguais no FSM. Ao mesmo tempo, nada impede que grupos de pessoas façam propostas e definam agendas entre si, no âmbito das reuniões. Temos de propor temas amplos e capazes de se materializarem em lutas concretas, como o fim das bases militares dos EUA e a destruição das armas nucleares. Esse mundo não vai mudar espontaneamente. Temos a tarefa urgente de construir uma poderosa frente antiimperialista, para unificar as lutas populares em todo o planeta.

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