Aproveitar o potencial brasileiro em TI
Soraya Misleh
Engenheiro brasileiro que atuou também no exterior – nos últimos tempos, entre Alemanha e Índia –, Jairo Martins da Silva encerrou sua bem-sucedida carreira em telecomunicações em maio último, como vice-presidente de TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação) da Siemens. Com a autoridade de quem inclusive gerenciou e montou equipes fora do País, bem como centros de operação, e garimpou esse universo global, ele é categórico em afirmar que o Brasil, embora praticamente desconhecido, não deve nada a outras nações emergentes, como China e Índia, quando o assunto é TIC. Pelo contrário, tem vantagens competitivas, lamentavelmente não divulgadas ou bem aproveitadas. Dedicando-se atualmente a dar aulas e palestras sobre tecnologia de bebidas, com ênfase em cachaça, e autor do livro “Cachaça, o mais brasileiro dos prazeres” (Editora Anhembi Morumbi, 212 páginas), ele torce para que o potencial nacional nas atividades de ponta também seja descoberto.
Qual o cenário mundial em relação a tecnologia da informação e comunicação?
A mídia toda diz que a Índia é um centro de competência, de tecnologia, então muitas empresas e pessoal de telecomunicações estão indo para lá. Mas o que eu percebi na realidade é que sua competência é devido a preço. Chegar lá, colocar um grande call center ou um help desk é bem diferente de ter um centro de desenvolvimento de software. Esse é o ponto. O tripé que guia as empresas é tempo, custo e qualidade. Hoje, quando a gente fala de tecnologia, seja produção de hardware, seja desenvolvimento de software, vê o seguinte: o custo é uma vantagem competitiva, e posso dizer que a Índia e a China hoje a têm. Agora, para ser produtivo em tempo, você precisa de processos bem definidos, pessoal bem treinado, e não posso dizer que existe essa competência lá. Qualidade muito menos, se as empresas quiserem estabelecer atividades nesses países, vão precisar investir muito nisso. Então, de uma forma radical, nesse tema, falar hoje em Índia e China é quase um modismo.
E aqui, qual é a situação?
Aqui temos boa formação, pessoas flexíveis, conhecemos processo muito bem e temos um skill gerencial muito bom. Além disso, o Brasil é um país em crescimento, não está tão mais vulnerável economicamente. Politicamente não tem muitos conflitos internos, não tem guerras. E até com relação aos aspectos geográficos, há vantagem, não temos grandes catástrofes. Claro que agora vai ter que investir, por exemplo na infra-estrutura aeroportuária, mas se fosse dada atenção a isso, se resolveria em pouco tempo. Também acho que as relações trabalhistas são relativamente justas e há uma rotatividade de pessoal muito mais baixa do que nessas outras nações. E o brasileiro busca sempre uma solução e principalmente sabe motivar as pessoas para conseguir produtividade. Talvez um ponto fraco ainda seja conhecimento de língua, principalmente a inglesa, em que precisa se investir mais, mas é questão de tempo. Outra coisa, se a gente analisar o ambiente empresarial, as macroatividades são desenvolvimento, produção, venda e serviços. As duas primeiras podem estar em qualquer lugar, o resultado final é que vai para o cliente. No caso de produção é mais fácil, pode-se ir à Índia ou à China, instalar uma máquina, treinar o pessoal, automatizar algumas funções e aí tem-se uma mão-de-obra barata e se consegue. Já desenvolvimento não é trabalho braçal, é cabeça, é criatividade, então a análise tem que ser muito mais apurada, não pode ser simplesmente por preço. E se a gente considerar venda e serviços, têm que estar perto do cliente. Várias empresas estão tomando decisões sem fazer essa análise.
Nessa lógica da globalização, de que se produz em um lugar, monta em outro, vende num terceiro, o Brasil está perdendo?
As multinacionais e transnacionais aqui situadas têm aproveitado as vantagens competitivas desses locais, mas quase todas mandam o management daqui, quer dizer a gestão. O Brasil está perdendo porque não faz muita propaganda. Um exemplo é a criação do pólo de informática no Recife. Lá o pessoal sai da universidade federal, tem incubadora, pode ser empreendedor. Depois tem Campina Grande, Ilhéus, que é agora um foco muito interessante na produção de hardware, Curitiba também, a própria Florianópolis, na parte de engenharia de produção. Tem arranjos ainda em Campinas, São José dos Campos. Hoje a maioria das universidades tem acordo com o governo em utilizar os alunos a determinados desenvolvimentos. Vemos no Brasil uma série de núcleos desses chamados arranjos produtivos, que os governos estão suportando até e é preciso fazer mais alarde.
Se o Brasil mudasse essa visão, deixasse de lado esse modismo Índia-China, poderia se tornar um dos grandes pólos nessa área?
Exatamente. O Brasil tem uma grande oportunidade agora, fala-se muito do chamado Bric, que é Brasil, Rússia, Índia e China. É uma chance de entrar nessa onda. Qual seria o resultado para o País com o melhor aproveitamento de seu potencial? Seria a entrada de mais divisas, exportar competência e aumentar o nível de emprego. Acho até que o Brasil precisava se esforçar mais em atrair empresas estrangeiras para cá. Seria uma política pública.
Ainda não se percebeu esse pulo-do-gato, não está entre as prioridades de governo?
Acho que o governo ainda não acordou para esse lado da tecnologia da informação, de software, de desenvolvimento, o Brasil não tem isso como um dos seus perfis de competência. Hoje se fala muito no etanol, no biodiesel, na bioenergia, e esse lado fica um pouco esquecido.





