Tecnologia assistiva: um mundo para todos
Lucélia Barbosa
Desde a invenção da roda ou da descoberta do fogo, o objetivo da tecnologia tem sido, resumidamente, facilitar a vida das pessoas em geral. No caso daquelas com deficiências diversas, pode ser a diferença entre o isolamento e uma existência mais plena e até o exercício da cidadania. Visando proporcionar inclusão social e conseqüentemente uma maior independência, a chamada tecnologia assistiva é utilizada para identificar todos os recursos e serviços que contribuem para aumentar, manter ou melhorar as capacidades funcionais. Isso engloba equipamentos, produtos ou sistemas fabricados em série ou sob medida, além dos serviços prestados por diversos profissionais, como professores, terapeutas, fonoaudiólogos, fisioterapeutas e engenheiros.
Entre os principais objetivos estabelecidos, está o suporte mecânico, elétrico, eletrônico, computadorizado, visual, auditivo e mental, todos buscando incrementar a qualidade de vida através da ampliação de comunicação, mobilidade, controle do ambiente, habilidades de aprendizado, trabalho e integração com a família e a sociedade. O software Motrix, destinado às pessoas com deficiências motoras graves, em especial tetraplegia e distrofia muscular, é um exemplo do avanço nessa área. Desenvolvido pelo NCE (Núcleo de Computação Eletrônica) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), com a intermediação da Internet, o sistema permite um acesso amplo à escrita, leitura e comunicação. “Esse programa dá a possibilidade de acessar o computador e através dele controlar o seu ambiente. Ligado à rede elétrica da casa, é possível acender e apagar as lâmpadas, ligar televisão, controlar sistemas de segurança localizados em seu quarto, sala, escritório e arredores, isso apenas com um pequeno movimento do queixo ou com a voz”, explica o professor José Antonio dos Santos Borges, chefe de desenvolvimento do grupo de tecnologia assistiva do NCE. Na mesma linha, os pesquisadores criaram o programa MicroFênix, indicado também para deficientes motores. “O desenvolvimento para essa categoria está de certa maneira sempre ligado à eletrônica e à robótica”, detalha ele.
Outro programa importante é o Braille Fácil, feito em parceria com o Instituto Benjamin Constant, o qual possibilita que o texto seja digitado diretamente ou importado em braile a partir de um editor de textos convencional. Desenvolvido em 1993, o sistema operacional Dosvox permite que o deficiente visual consiga desempenhar uma série de tarefas. “O programa trabalha com um menu de perguntas e respostas, de maneira simples, deixando a comunicação fácil de ser compreendida. O computador passa a falar e com isso a pessoa vai interagir”, descreve Borges. Segundo ele, houve diversas atualizações desde o desenvolvimento da ferramenta, que atualmente contempla 90 subprogramas que atendem a edição de texto, comunicação pela Internet, jogos e uma série de outros recursos. “Mesmo quem nunca teve acesso a essas informações consegue utilizar o computador em poucos dias”, afirma. Sistema mais antigo do NCE, o Dosvox atende hoje a mais de 20 mil usuários no Brasil.
Caminho a percorrer
De acordo com o engenheiro industrial, web designer e editor do Centro de Referências Faster (especializado em assuntos de inclusão), Ricardo J. Del’Acqua, o Brasil ainda necessita de maiores investimentos no desenvolvimento de produtos especiais, equipamentos, transportes e ambientes adequados em diversos setores. Conforme relata o tecnologista Saul Eliahu Mizrahi, da Divisão de Gestão da Produção do INT (Instituto Nacional de Tecnologia), a maioria dos produtos nacionais ainda é da área de tecnologia da informação, vinculada ao uso de computadores como equipamentos de entrada e saída (síntese de voz, braile), teclados modificados ou alternativos, acionadores e softwares especiais, a exemplo dos desenvolvidos pelo NCE. “Existe alguma coisa na área médica, como cadeiras de rodas e andadores, mas é bem pouco”, lamenta. Por outro lado, afirma ele, a engenharia se torna cada vez mais atuante na inclusão das pessoas com deficiência: “Sistemas mecânicos, pneumáticos, eletrônicos são cada vez mais utilizados em adaptações automotivas, elevadores e ambientes, além da preocupação com a acessibilidade em locais públicos e privados.” Para Luis Carlos Mota, da Divisão de desenho industrial do INT, é preciso despertar a consciência para a demanda existente. “Apesar de haver mercado garantido, as indústrias não se interessam em produzir bens para os deficientes”, critica. Segundo Borges, há planos positivos para o setor, como incentivos a projetos de pesquisa e desenvolvimento e até a criação de pólos de tecnologia assistiva, mas que ainda não se concretizaram. “São idéias boas que ainda estão no papel”, conclui.
Serviços
Os quatro sistemas desenvolvidos pelo NCE são gratuitos e estão disponíveis na Internet nos seguintes endereços:
• Braille Fácil: http://intervox.nce.ufrj.br/brfacil/#download
• Dosvox: http://intervox.nce.ufrj.br/dosvox/download.htm
• MicroFênix: http://intervox.nce.ufrj.br/microfenix/
• Motrix: http://intervox.nce.ufrj.br/motrix/download.htm





