Engenharia Unida elege vereador em Rio Branco
Rita Casaro
Delegado sindical do Senge Acre, o engenheiro civil Ricardo Araújo elegeu-se, no pleito de 5 de outubro último, vereador pelo PT em Rio Branco com 2.600 votos. A vitória, longe de ser individual, significa o sucesso do movimento Engenharia Unida, que há dois anos luta pela valorização da categoria e vê na participação político-partidária um caminho importante para garantir melhores condições de trabalho e vida aos profissionais e à população como um todo. Não por acaso, entre os principais projetos que Araújo deve defender na Câmara Municipal está a implementação da engenharia pública na cidade, permitindo à população de baixa renda contar com assessoria técnica para construir sua moradia. Ao Engenheiro ele falou sobre os planos para a atuação como parlamentar e a continuidade da mobilização no Estado.
Quais são as propostas de atuação na Câmara Municipal de Rio Branco?
Uma delas é criar cursos profissionalizantes de nível médio. Rio Branco cresceu demais e se desenvolveu, mas a nossa população ficou fora desse mercado. Falta uma série de profissionais e não há cursos profissionalizantes para prepará-los. O Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial) oferece os cursos, mas, aqui no Acre, são caros. Queremos que a Prefeitura propicie essa formação. Vamos reunir a Federação das Indústrias, o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) e próprio Senai para pensar um projeto. Queremos que a população se qualifique a desempenhar as funções disponíveis, seja na construção civil, serviços, comércio, alimentação etc. Hoje, faltam pedreiros, mestre de obras, operadores de máquina, técnicos.
Há algo previsto para a qualificação do engenheiro?
Já chamamos o Crea para discutir esse assunto juntamente com o Senge. Para fazer uma especialização ou um mestrado na nossa área, temos que sair do Acre, então falta pós-graduação. Se o Brasil continuar crescendo e conseguirmos sair dessa crise, a deficiência que já existe de engenheiros vai aumentar. O próprio projeto de engenharia pública vai abrir vagas.
Essa foi uma bandeira da sua campanha. Qual a idéia?
Esse é outro projeto pelo qual vamos brigar. Queremos que os serviços de engenharia sejam oferecidos gratuitamente, como no caso do defensor público ou do médico do SUS (Sistema Único de Saúde). A idéia é que beneficie quem ganha até dois salários mínimos, que contaria com o projeto e o acompanhamento da obra feita por um profissional habilitado. Atualmente, grande parte da população constrói na marra, sem planta aprovada, e acaba tendo sua casa embargada. Isso vai ajudar também a Prefeitura, que manterá seu Plano Diretor. Existe um financiamento da CEF (Caixa Econômica Federal) para população de baixa renda, de até R$ 10 mil para ser pago em 20 anos, com prestações que começam em R$ 94,00 e terminam em R$ 41. Hoje, um aluguel de um quarto é no mínimo R$ 150, 00, então a pessoa vai poder construir e pagar pelo que é seu. Essas casas, se não tiverem rede coletora de esgoto, terão ao menos uma fossa, que é um início de saneamento básico. Aqui na nossa região, na área mais periférica, é comum os dejetos ficarem a céu aberto; no inverno, com as alagações, há contaminação que atinge sobretudo as crianças. Esse projeto vai também abranger a área de saneamento, que é medicina preventiva, além da regularização dos terrenos. Pode se estender também à área rural. Para fazer hoje um açude, é necessário um projeto a ser aprovado pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Muitas vezes, um pequeno agricultor não tem como pagar por isso.
Como será organizado o serviço?
A idéia geral é que a Prefeitura monte uma fundação ou autarquia municipal, que fará concurso para contratação de engenheiros, arquitetos e agrônomos que atuarão na assistência à população. Ontem mesmo
(23 de outubro) fizemos a reunião inaugural da Comissão Consultiva da Engenharia Pública, que vai definir o modelo desse órgão, com a participação do Senge, da FNE, da Associação de Engenheiros e Arquitetos, da ONG Engenheiros Solidários, do Crea (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil). O prefeito Raimundo Angelim também já se mostrou favorável, tendo em vista o cunho social desse projeto.
Como está o movimento Engenharia Unida, que apoiou a sua candidatura?
O movimento nasceu há dois anos com a discussão da Lei Cartaxo, hoje realidade no município e no Estado, garantindo o pagamento do piso profissional e a carreira do engenheiro. Também já conseguimos eleger o presidente do Crea-AC, Amarildo Uchôa Pinheiro. Está se tornando cada vez mais forte, mostrando a importância da engenharia, que era um leão disfarçado de gato, não sabia a força que tinha. O engenheiro está vendo agora a necessidade de participar da política para trazer melhoria para nossa classe e para toda a população. Vamos ter que começar a batalhar também por melhorias das condições de trabalho, porque não basta salário. Temos que incrementar a qualidade dos nossos técnicos.
E quais os próximos passos?
Temos que manter a luta, quando se conseguem várias vitórias não significa que chegamos ao topo. Precisamos trabalhar para participar dos projetos e influir nos rumos do desenvolvimento. Isso deve acontecer também pela via político-partidária. Quem não gosta de política será governado por ela. Foi o que aconteceu com a engenharia no passado. É também fundamental se eleger pela classe e trabalhar por ela, daí a importância do movimento Engenharia Unida.



