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FNE / Jornal / Edição 93 – Fev/10 / A tecnologia do Carnaval

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A tecnologia do Carnaval

Soraya Misleh

A era digital chegou ao Carnaval do Rio de Janeiro. E não apenas nas transmissões dos desfiles das escolas de samba. Trazendo o enredo “Derrubando fronteiras, conquistando a liberdade, um rio de paz, em estado de graça!”, a primeira ala da Portela representará a Internet. Enquanto na temática as novas tecnologias estão cada vez mais presentes, na avenida, contudo, não deve haver grandes surpresas em relação aos últimos anos. A opinião é de Carlos Monte, que, além de coordenador do “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”, é diretor cultural da Portela.

Segundo ele, houve evolução gigantesca em relação aos anos 30, quando não se utilizavam por exemplo os atuais dispositivos de movimento, efeitos especiais, comandos por computador para apagar e acender luzes automaticamente. Ainda, as figuras hoje são em terceira dimensão e se recorre ao CAD para montar protótipos. E os materiais, antes basicamente madeira e papelão, deram lugar a outros mais leves como fibra, isopor, além de gesso, arames e varetas nas armações. Com essa mudança, segundo José Augusto Nogueira Kamel, professor-doutor de Engenharia de Produção da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e coordenador do Laboratório de Engenharia do Entretenimento dessa instituição, uma fantasia de baiana, que pesava 7kg a 8kg, passou a 3kg. Nas vestimentas e adereços, como completa ele, data de pelo menos dez anos a busca por maior resistência e menor desperdício com as chuvas, com o uso de materiais impermeáveis. “Há também muito investimento em plástico-espelho, que reflete e brilha, em lugar de tecido e papel.” Os carros, antes praticamente empurrados, agora contam com motor.

Todavia, tirando inovações pontuais, como as apresentadas pelo famoso carnavalesco Joãozinho Trinta, diz Monte, a festa popular “continua a ser extremamente artesanal”. Isso porque o objetivo não é revolucionar na avenida, mas tão somente garantir um bom desfile. Consequentemente, não deve haver grandes surpresas em 2010, acredita o diretor da Portela.

 

Sem problemas

Para assegurar que não haja falhas nos carros alegóricos, é feito um cálculo preciso de resistência de acordo com o peso e as dimensões, bem como é pensada a questão da logística. “No Rio de Janeiro, no caminho entre a região do cais do Porto (de onde saem os veículos) e a zona do desfile há muitas árvores”, observa Monte, apontando que isso tem que ser considerado no projeto da alegoria.

Uma das maiores preocupações das escolas tem sido aliviada com a tecnologia: o controle do tempo de passagem pela avenida, para evitar estouros e perda de pontos. Os desfiles técnicos que antecedem o grande dia também ajudam a evitar problemas, constata.

Responsável técnico contratado pela Mangueira, Portela, Viradouro e Salgueiro, Edson Marcos Gaspar de Andrade é um dos que atuam para garantir que tudo corra bem na Cidade do Samba – na qual é o engenheiro que cuida da manutenção e coordena a montagem das passarelas. Vinculado à Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), ele tem como atribuição assegurar que toda a estrutura esteja em condições de segurança, com os acessos e serviços devidamente instalados. Para tanto, são feitos ensaios de carga e cumpridas as exigências relativas às normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) e ao Corpo de Bombeiros. Andrade enfatiza que a vistoria no local tem sido feita diariamente. Destaca ainda que a Liesa divulga às escolas um regulamento para o atendimento das recomendações necessárias. E diz que cada uma deve ter responsável técnico pelos projetos das alegorias, cenográfico, de iluminação – portanto, precisa contratar um engenheiro. “É fundamental que toda concepção artística tenha por trás esse acompanhamento”, ratifica.

Em São Paulo também funciona assim. Na Capital, a responsável pelo evento é a autarquia municipal SP Turis (São Paulo Turismo). Seu coordenador de Carnaval, Marco Antonio de Sant´Ana, aponta que existe um manual a ser seguido pelas escolas de samba. E resume as normas definidas a essas: “Os carros alegóricos precisam ser finalizados no Sambódromo.” São escoltados pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) e chegam com 4,5m. Somente depois aumentam de tamanho, podendo alcançar até 13m. “Para evitar acidentes, todas as baias (para a conclusão desse trabalho) têm extintor de incêndio e temos um carro de bombeiros estacionado na área do desfile e uma equipe de plantão na concentração.” Nessa, ainda segundo ele, há alguns anos foram instalados hidrantes. Também é colocado no espaço externo caminhão-pipa. “Nos carros, temos destaques (pessoas) que devem ser içados. Utilizamos guindastes para essa operação e o acompanhamento de bombeiro civil”, continua. Sant´Ana afirma que essa ocupação pelas escolas é fiscalizada pela Prefeitura.

Conforme Kamel, a tecnologia envolvida diz respeito sobretudo ao modo de organização e transmissão dos desfiles. “De dois anos para cá, houve um processo de revitalização grande quanto à iluminação e ao som, para disponibilização de melhores imagens e áudio pela TV. É o uso de tecnologia da informação ao vivo.” Luiz Carlos Prestes Filho, coordenador do Núcleo de Estudos de Economia da Cultura da Associação Brasileira de Gestão Cultural, lembra que os carnavais de antigamente estão totalmente superados, “por conta das mudanças no padrão tecnológico”.

Saindo do eixo Rio-São Paulo, em que predominam os desfiles de escolas de samba, segundo Prestes, no Nordeste e mesmo no Sul também há evolução nesse sentido. “Em Pernambuco, o frevo ganha área específica, o passódromo, e há um salto em profissionalização e inovação. Na Bahia, nos últimos dez a 15 anos, recursos de iluminação e sonorização têm modificado o Carnaval. A questão tecnológica se impõe pelo desenvolvimento das linguagens regionais.” Atrás do trio elétrico, está a engenharia com certeza.

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