Amazônia do futuro é high tech

Lucélia Barbosa

Temas de destaque no seminário que integrou a programação do II Fórum Internacional de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Sul-americana foram ciência e tecnologia, educação básica e a formação de mão de obra qualificada, tratados no dia 4 de junho, em Rio Branco.
Em sua apresentação, Estevão Monteiro de Paula, pesquisador do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia), falou das necessidades de C&T e dos desafios estruturais da Amazônia, tais como distribuição de energia, saúde, educação, comunicação, malha viária, sistema de proteção contra o desflorestamento, implantação de institutos tecnológicos nas diversas áreas e o uso de biotecnologia e nanotecnologia para exploração da biodiversidade da região.
Conforme ele, essas mudanças precisam ser feitas levando em consideração os 25 milhões de habitantes que vêm contribuindo de forma marcante para a conservação da floresta graças ao amplo conhecimento que possuem sobre os seus recursos naturais. “É fundamental que o plano de desenvolvimento da Amazônia esteja alinhado com a preservação ambiental e com o bem-estar dessa população”, enfatizou Monteiro.
Outro aspecto a ser revisto são os recursos de C&T para a região. Segundo ele, a população amazonense produz 8% do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro, mas recebe de volta menos de 1%. “Hoje, o Governo investe consideravelmente na ação de controle e monitoramento, mas muito pouco em inclusão social. É preciso inverter esse processo. Temos que ampliar o conhecimento da população local para acabar com a exclusão e gerar renda”, sugeriu Monteiro, que também apontou a necessidade de marcos regulatórios, a ampliação de iniciativas multilaterais na área de C&T com países amazônicos e a criação de programas internacionais de capacitação para a região.
Para o professor da UFF (Universidade Federal Fluminense) Marco Aurélio Cabral Pinto, este é o momento de pôr em ação o plano nacional desenvolvimentista que obriga a trilhar o novo caminho da industrialização. “Tentamos por três vezes na história emplacar esse projeto sem sucesso. Agora temos a oportunidade de resgatá-lo e esse não pode se limitar ao pré-sal. A Amazônia pode ser a maior capacidade laboratorial instalada do planeta.Temos que aproveitar a chance e agir rapidamente”, propôs. Segundo ele, o projeto nacional atinge vários setores de uma forma coordenada mostrando que a industrialização é um processo integrado. “Tenho certeza que a engenharia brasileira vai estar preparada para enfrentar esse desafio.”
O professor acredita que a cidade de Rio Branco está pronta para ancorar uma plataforma audaciosa de C&T na região. “Tenho defendido no projeto ‘Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento’ a articulação entre os centros de pesquisas para a formação de um sistema de educação de alto nível. Precisamos trazer a elite intelectual do Brasil para a Amazônia. Reunir os melhores cérebros através de olimpíadas, concursos e dar condições a esses profissionais de se instalarem na região para estudá-la e desenvolvê-la”, sugeriu.

Educação básica
Durante a sua apresentação, o coordenador do Conselho Tecnológico do Seesp e diretor da Poli/USP (Escola Politécnica da Universidade de São Paulo), José Roberto Cardoso, traçou um panorama histórico sobre as causas do atual déficit de engenheiros no Brasil e sobre a importância da profissão para o desenvolvimento da Amazônia e do País como um todo.
Conforme relatou, nas décadas de 1980 e 1990 houve falta de investimento em infraestrutura, o que levou a um período de estagnação. “Nessa época, a engenharia passou a ser uma profissão de desempregados e ninguém mais queria seguir a carreira. Hoje, com a retomada do crescimento, há escassez”, citou Cardoso.
Outro fator que amplia a carência na área é o alto índice de evasão nos cursos de engenharia. “Cerca de 60% dos estudantes os abandonam ao final do segundo ano porque não suportam a carga das matérias devido à deficiência na formação básica em matemática, física e química.” “Em maio último, um concurso público para professores de física no Estado de São Paulo abriu 931 vagas, mas preencheu apenas 304. Precisamos mudar esse quadro”, defendeu.
Uma das saídas, na opinião de Cardoso, é permitir que alunos de engenharia e profissionais formados ministrem as disciplinas de exatas no ensino médio, que também deve agregar maior teor tecnológico com práticas laboratoriais. “Precisamos criar programas de atração do sexo feminino e minorias para a engenharia, melhorias no rendimento escolar, além de colocar o estudante em contato com a profissão desde o primeiro ano de curso”, elencou.
Na mesma linha, o pesquisador do Inpa sugeriu ações que estimulem a capacidade de empreender já no ensino fundamental. “A cada 800 matriculados nesse período, somente um opta por engenharia”, informou Monteiro, que também propõe a disseminação da cultura da inovação nos cursos de graduação e pós-graduação da Amazônia.
Para Cabral Pinto, é preciso traçar trajetórias simples de mudança social fundamentada no ensino. “Não podemos pensar no progresso científico e tecnológico do Brasil sem atuarmos firmemente no projeto educacional”, concluiu.
Participaram também Kleber Santos, engenheiro agrônomo e conselheiro do Confea (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) e José Covenas Lalupu, professor da Universidade Nacional Federico Villarreal, do Peru.

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