Imprimir

Após 13 dias de negociações sediadas na capital francesa, a 21ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP 21) divulgou, em 12 de dezembro último, o “Acordo de Paris”. O texto, aprovado por representantes de mais de 190 países, indica os compromissos globais relativos à mudança climática. A meta principal é limitar a menos de 2°C o aquecimento do Planeta até o ano de 2100, tendo como base o período pré-revolução industrial, embora já tenha havido a elevação de 1°C desde então. Em entrevista ao Engenheiro, o geógrafo Lucas Carvalho Pereira avaliou positivamente o acordo. “O governo francês tinha como meta fazer a convenção dar certo, sendo necessária uma grande negociação em que todos os interesses fossem atendidos, o que é difícil e, no entanto, foi realizado”, afirmou. Diretor da ONG Iniciativa Verde, que atua com projetos de restauração ecológica, ele ressalta que ao Brasil cabe investir sobretudo em energia limpa, tarefa para a engenharia.

Como o senhor avalia o resultado da COP 21?

Nunca tinha visto nas demais conferências uma participação tão grande do setor privado, da própria mídia, do setor ambientalista. Sinto que neste momento há uma noção de responsabilidade ambiental propagando-se nas sociedades. Isso traz otimismo. Claro que agora não é o ponto final dessa discussão, e sim o ponto inicial para que, até 2100, seja possível reduzir as emissões de gás a ponto de não aumentar o aquecimento global em mais de 2°C.

Essa conferência significou um avanço em relação às edições anteriores?

A conferência é formada por vários grupos de países. O grupo dos países desenvolvidos, como Estados Unidos, Noruega e Japão, é sempre o mais duro nas discussões. Ter uma concordância dessas partes em um texto que visa, inclusive, um fundo de investimento dividido entre eles é um avanço. O acordo de Paris é um Protocolo de Quioto melhorado.

Mas será possível cumprir o pacto firmado, especialmente o limite no aquecimento global a menos de 2°C?

Considero uma meta ousada, pois já tivemos um aquecimento global de 1°C no período pós-revolução industrial. Para manter em 2°C ou, como se sugere, apenas 1,5°C, necessita-se reduzir emissão de gases poluentes. Foram retirados do texto os percentuais que engessavam a redução de gases de efeito estufa, deixando uma menção mais genérica de que, até 2050, deve-se buscar a neutralidade das emissões. Isso pode enfraquecer o comprometimento dos países, mas o documento também propõe que a cada cinco anos, a partir de 2020 quando começa a valer o acordo, seja avaliado se as ações realizadas pelas partes são suficientes para atingir esse aquecimento global saudável até 2100.

O que isso significa na prática?

Deverão ser criados mecanismos, normas e regras para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. O Brasil criou sua própria meta e a apresentou na COP 21. A chamada INDC (Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas, na sigla em inglês) brasileira propõe que o País reduza as emissões em 37% até 2025, em relação a 2005, e em 43%, até 2030. A emissão de gases poluentes no Brasil é baseada no desmatamento, na geração de energia e na agropecuária. Ou seja, o setor privado está diretamente envolvido e, para que a redução ocorra, é necessário um trabalho mútuo do governo e empresas. É uma meta também ousada, mas que o País tem plenas condições de fazer, pois já houve queda no desmatamento desde 2003 e 2004. Dentro de casa, podemos dizer que a lição já foi iniciada. Agora o que o Brasil precisa fazer é investir em energias renováveis e diminuir cada vez mais o uso de combustíveis fósseis, o grande responsável pela emissão de carbono no mundo. Apesar de os subsídios para essa fonte de energia ainda existirem, o País apresenta crescimento na busca de energias renováveis, principalmente da eólica.  Criar novas tecnologias para buscar essas fontes alternativas é fundamental e é o grande papel da engenharia.

Como foi a atuação do Brasil na COP 21?

Foi muito importante, por representar tanto os países em desenvolvimento como também os que têm uma grande responsabilidade nas emissões, pelo histórico de redução de emissões em função da queda do desmatamento. O Brasil teve papel fundamental nas negociações para trazer aos países desenvolvidos a responsabilidade de financiar a adaptação das mudanças climáticas no futuro. Outra meta com a qual o Brasil se comprometeu é a restauração de 12 mil hectares de floresta até 2030. Também é árdua, mas muito importante. O reflorestamento, além de absorver muito carbono da atmosfera, traz benefícios para superar a crise hídrica, que também se dá pela falta de florestas das matas ciliares dos mananciais que abastecem os estados.

Qual a importância do fundo de financiamento de responsabilidade dos países desenvolvidos?

Finalmente uma COP propõe financiamento, estimado em US$ 100 bilhões por ano, a partir de 2020, cedido pelos países desenvolvidos. Esse foi um ponto polêmico, pois os países ricos queriam dividir essa contribuição com os em desenvolvimento, que eles acreditam hoje ter um bom cenário. Mas a responsabilidade histórica dos países ricos na emissão de carbono é superior à dos emergentes. Ficou acertado então que esses poderão contribuir com o fundo voluntariamente. O dinheiro será direcionado principalmente aos que mais sofrem com as mudanças climáticas, como os países insulares, pequenas ilhas que estão fadadas ao desaparecimento devido ao aumento do nível do mar, consequência do aquecimento global.