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Presidente da FNE e do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), Murilo Pinheiro defende algumas premissas básicas para que o Brasil supere a grave crise econômica em que se encontra: o País deve retomar investimentos a partir de estímulo governamental; são necessárias medidas que estimulem a produção e a geração de empregos, como a redução da taxa de juros; e, principalmente, que haja protagonismo dos profissionais da área tecnológica nesse processo.

Para que essa última seja possível, afirma, é preciso que se consolide a unidade desses quadros técnicos e de suas entidades representativas, conforme propugna o movimento “Engenharia Unida”, lançado por Murilo em 2016. Confira a entrevista do dirigente ao Engenheiro.

Quais os principais desafios da engenharia e dos seus profissionais hoje?
A categoria enfrenta os efeitos da recessão econômica, que tem parado obras e projetos, impedido investimentos e gerado desemprego. Desde 2014, quando o emprego formal deixou de crescer no setor, o saldo negativo entre engenheiros admitidos e demitidos já atingiu os 50 mil. Os engenheiros e demais quadros da área tecnológica são os profissionais do desenvolvimento por excelência e, portanto, perdem espaço num quadro de estagnação como o que estamos vivendo. É essencial que o crescimento econômico seja retomado para que a categoria volte a ter oportunidades, então este é, sem dúvida, o nosso grande desafio hoje. Para além do quadro atual de dificuldades, os profissionais têm uma pauta de luta permanente que é garantia de remuneração justa, condições de trabalho adequadas, que incluem a autonomia necessária para que o exercício de suas funções seja desempenhado de acordo com o seu saber técnico, e acesso a qualificação constante. Essas são pautas prioritárias da nossa federação e dos nossos sindicatos filiados. Temos atuado firmemente em torno dessas questões nas negociações salariais com as empresas e junto aos poderes públicos. Uma questão premente nesse conjunto é o cumprimento do salário mínimo profissional, conforme a Lei 4.950-A/1966, também bandeira de luta da FNE.

Como é a ação da FNE para contribuir com o desenvolvimento nacional?
A FNE discute o desenvolvimento nacional desde 2006 por meio do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”. Esse trabalho, que segue vivo e é atualizado permanentemente, tem o objetivo de elaborar propostas visando o desenvolvimento sustentável do País, debatê-las com o conjunto da sociedade e apresentá-las aos governantes e parlamentares. Mais do que nunca, consideramos que hoje esse esforço é essencial, e precisa ser amplificado. E exatamente por isso propusemos a formação da coalizão que chamamos de “Engenharia Unida”, um movimento de profissionais e entidades representativas, cujo objetivo é contribuir para o desenvolvimento nacional, assegurando a valorização dos profissionais da área tecnológica, que devem ser protagonistas desse processo. É nossa convicção que a engenharia tem muito a fazer pelo País, mas isso só será possível de forma coesa, unitária. Divididos, não teremos a relevância devida.

O que a entidade propõe para reverter a crise no País? Quais seriam as medidas a serem tomadas já?
Uma medida emergencial é a retomada das obras paralisadas no País, que somam cerca de 5 mil. A construção civil é o setor que sofre o impacto da crise de forma imediata, mas também é onde poderíamos gerar emprego com mais rapidez e aquecer a economia. A insistência do governo em conter gastos de forma praticamente suicida é um erro. A economia de um país não é como orçamento de uma família. O poder público precisa fazer investimentos e estimular o setor privado a fazer o mesmo. Não há outra forma de crescer. Para que isso aconteça, também é necessário reduzir a taxa de juros que é astronômica no País, o que prejudica especialmente a indústria. Em julho, o Banco Central reduziu a Selic para 9,25% ao ano. Mas é preciso atentar que a inflação tem caído, portanto, a taxa real de juros continua alta. Essa é uma situação que só interessa à especulação financeira. E é também o fator que mais contribui para que as contas do governo não fechem, pois eleva absurdamente o custo da dívida pública.

A “Engenharia Unida” foi lançada em março de 2016 e depois foi objeto de um grande encontro realizado em novembro do mesmo ano. Como tem sido a atuação desse movimento desde então?
Contando com o deputado federal Ronaldo Lessa, o movimento conseguiu articular a Frente Parlamentar da Engenharia, Infraestrutura e Desenvolvimento Nacional. Essa tem tido o papel fundamental de, em meio a todo o caos político que vivemos, abordar discussões que dizem respeito ao País e à categoria. Um tema que está em pauta são as mudanças feitas nas regras de contratação de conteúdo local pelas empresas que exploram gás e petróleo no Brasil. No início do ano, o governo reduziu à metade a exigência de contratação nacional para os próximos leilões; mais recentemente a Agência Nacional do Petróleo anunciou que pretende flexibilizar também a exigência de nacionalização de bens e serviços prevista em contratos vigentes, assinados desde 2005. Isso significa condenar o País a ser mero exportador de óleo e excluir a indústria e a engenharia nacionais dos negócios que serão gerados no setor. É um erro cometido pelos países que, embora ricos em petróleo, continuam subdesenvolvidos, como é o caso da Nigéria. Segundo a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos), essa medida significará mais 1 milhão de trabalhadores desempregados. Pelas nossas estimativas, serão excluídos do mercado cerca de 5 mil engenheiros altamente qualificados. Isso tem que ser revisto a bem do Brasil. Temos todas as condições de superar este momento crítico, mas é necessário que as medidas corretas comecem a ser tomadas.