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Como profissão do desenvolvimento por excelência, a engenharia é fortemente afetada em momentos de crise, como o atual. A profissionais experientes, recém-formados e estudantes da área, o desafio de se manter no mercado ou conquistar uma vaga ficou ainda maior.

Engenheiro civil formado há 16 anos pela Universidade Estadual do Maranhão (Uema) e atuando em Brasília há nove, Erivan Leão de Albuquerque perdeu o emprego com carteira assinada em maio último e desde então presta serviços como autônomo: “O primeiro setor afetado é a construção civil. É um momento difícil, vários colegas estão parados”, observa. Ele vislumbra melhora e mais oportunidades, inclusive porque está buscando especialização, como pós-graduando em Gerenciamento de obras, tecnologia e qualidade da construção.
Recém-formado em Engenharia Civil pelo Centro Universitário Luterano de Manaus (Ceulm/Ulbra), Eugênio Renoir de Goes Borges enfrenta ainda o dilema de ver o mercado exigir experiência para quem acaba de se graduar – o que, na sua ótica, agrava-se quando há poucas oportunidades. Sem ainda conseguir seu primeiro emprego na área, ele segue os passos de Albuquerque: aposta na especialização. Enquanto aguarda oportunidade, investe na possibilidade de seguir carreira acadêmica: faz mestrado em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam).
Um dos grandes contratantes, o segmento de atuação de ambos profissionais, nos últimos 12 meses, contratou no País 1.342.646 trabalhadores e demitiu 1.625.900, variação negativa de 11,36%. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados do Ministério do Trabalho e Emprego (Caged-MTE). “A retração econômica que afeta a confiança de empresas e famílias e a diminuição drástica de investimentos por parte do poder público levaram à suspensão de novas obras e projetos, o que afeta de forma drástica a geração de empregos em todas as regiões do País”, explica o presidente da Comissão de Política de Relações do Trabalho (CPRT) da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Fernando Guedes. Como alento aos engenheiros e estudantes da área, ele afirma: “O setor espera a volta do crescimento a partir de 2018. Em acontecendo, novas vagas serão abertas rapidamente.”
Saída necessária para acelerar esse processo é retomar as 5 mil obras de infraestrutura paralisadas no País, o que tem sido propugnado pela FNE. Essa é também a visão do estudante de Engenharia Mecânica da Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) Gilberto Carneiro da Silva. Apreensivo com o futuro, mas otimista, ele observa: “A qualquer momento, a economia vai aquecer novamente. É quando a engenharia vai se destacar. São muitas obras paradas e infraestrutura que precisa ser retomada.”

Apreensivos, mas otimistas
A situação se repete em outros segmentos. Engenheira florestal formada há três anos pela Universidade Federal do Acre (Ufac), campus Cruzeiro do Sul, Suelen de Andrade Silva relata: “Desde que colei grau em 2014 ainda não tive nenhuma oportunidade de exercer minha profissão.” Natural de Cruzeiro do Sul e vivendo em Rio Branco, ela observa: “Concursos e instituições aqui no estado disponibilizam poucas vagas.” E reclama: “Se não tiver pós ou experiência na área nunca se consegue. É meu caso. Já fiz inúmeros processos seletivos simplificados em nível de currículo e nunca fui chamada. Como vou ter experiência se não existem oportunidades para os recém-formados? Aí complica.” Andrade está no momento cursando pós-graduação, e frisa: “Espero que os processos seletivos sejam por desempenho nas provas, não somente por currículo. Assim, não seria injusto, seria de igual para igual.”
Além da busca por experiência, temor é que, à contratação, empresas rebaixem salários em tempos de crise, recusando-se a pagar o piso estipulado pela Lei 4.950-A/66 em nove mínimos vigentes no País para jornada diária de oito horas. Recém-formado em Engenharia Civil e em busca de trabalho, Fabrício Campos Rebouças enxerga essa possibilidade de “desvalorização profissional” e conclama: “O curso é difícil e desafiador, não podemos nos submeter a ganhar abaixo do mínimo que foi conquistado com tantos anos de luta. O mercado vai melhorar, temos que nos manter firmes.”
Agravante é a aprovação da reforma trabalhista no Congresso Nacional. “A liberação da negociação direta entre patrão e empregado vai legalizar na engenharia a pejotização (em que o trabalhador é contratado sem direitos trabalhistas, como pessoa jurídica), que já acontece hoje, rebaixando salários”, alerta o estudante de Engenharia Elétrica Thiago Pereira Gabriel, que reside em São Paulo. “A expectativa é grande e o receio também”, resume o aluno do último ano de Engenharia Elétrica pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Darlan Rogério Pereira Ribeiro, em busca de estágio.
Para Lucy Anne de Omena Evangelista, estudante do sexto semestre de Engenharia de Inovação do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec), é preciso apresentar diferencial. “Acredito que minha formação, que permite identificar dificuldades e pensar novas soluções, oferece isso”, entusiasma-se.
Apesar de compartilhar da insegurança de quem está prestes a ingressar como profissional no mercado de trabalho, a angolana Evalina César Cassule, que veio ao Brasil cursar engenharia ambiental, acredita que é necessário outro olhar. “Sou estrangeira, estou sozinha, ou me viro ou me viro”, brinca ela, que acabou de se formar. Nessa situação, considera que não se pode ficar preso ao argumento da crise: “A vida é um barco, devemos entrar nele e remar.”