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Um pacto nacional na busca por saídas diante da grave crise que assola o País. A conclamação foi feita por Murilo Pinheiro, presidente da FNE, à abertura do encontro intitulado “Engenharia Unida – Mobilização pela retomada do crescimento e valorização dos profissionais”. Realizado em Barra Bonita (SP) entre 24 e 26 de novembro, o evento reuniu cerca de mil participantes e demonstrou logo à abertura a coesão pretendida.

Além dos dirigentes dos 18 sindicatos dos engenheiros filiados à FNE, representantes de câmaras e entidades municipais, do Sistema Confea/Creas, da academia, do patronato e de associações de classe, bem como estudantes, atenderam ao chamado pela “Engenharia Unida” feito pela federação. O secretário de Estado de Agricultura e Abastecimento de São Paulo, Arnaldo Jardim, compareceu em nome do governador Geraldo Alckmin. Também prestigiou a atividade o secretário nacional da Aviação Civil, Dario Rais Lopes, e o prefeito eleito de Barra Bonita, Zequinha Rici. Todos os três engenheiros. Ao encerramento, foi aprovada por aclamação a Carta de Barra Bonita, apontando a importância da unidade da categoria para assegurar seu protagonismo rumo ao enfrentamento dos desafios atuais e propostas nesse sentido.

Abrindo os trabalhos, Murilo Pinheiro destacou: “Não podemos nos calar. Temos que nos unir para lutar fielmente na defesa dos nossos recursos, como o pré-sal, as reservas hídricas, a Amazônia. Precisamos posicionar as entidades e os trabalhadores na proteção e incentivo ao sistema produtivo, não podemos nos render ao setor financeiro. A agronomia de ponta desenvolvida por nossos técnicos tem sustentado nosso Brasil em momentos complicados e nos apresentado ao mundo por nossa inteligência e inovação tecnológica. Sabemos que os engenheiros e profissionais da área tecnológica têm um papel fundamental, juntamente com os governantes, empresários, instituições de ensino, jovens estudantes: ser os agentes transformadores para as mudanças necessárias à volta do crescimento e desenvolvimento.”

Em defesa da profissão e para fazer frente aos ataques, como os representados pela Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 55 – aprovada na Câmara sob nº 241 e em primeiro turno no Senado, que congela as chamadas despesas primárias, como investimentos e gastos sociais por 20 anos –, e as reformas trabalhista, sindical e previdenciária, o presidente da FNE informou que a categoria tem agora um espaço para amplificar sua voz junto ao Congresso Nacional: a Frente Parlamentar Mista da Engenharia, Infraestrutura e Desenvolvimento Nacional, lançada no dia 22 de novembro, em Brasília (DF). “Iniciativa do deputado federal Ronaldo Lessa (PDT-AL), engenheiro, em parceria com a FNE e o Sistema Confea/Creas, e reunindo diversas entidades, a vontade política demonstrada nas falas dos parlamentares na ocasião nos faz acreditar que haverá importantes avanços para a área tecnológica, o que certamente resultará em conquistas para toda a sociedade brasileira, em busca de saídas da brutal recessão que nos assola.”

José Tadeu da Silva, presidente do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea), salientou: “Quando fazemos a leitura principalmente das grandes nações, vemos que saíram inclusive de guerras e se reergueram, hoje ocupando liderança, através da engenharia. São esses os profissionais que fazem com que qualquer país se desenvolva. No Brasil, que nunca na história passou por uma recessão tão forte, vamos virar o jogo.” Dario Rais apontou desafios que estão colocados nesse sentido: seguir garantindo prazo nas obras, sem perda de qualidade; resgatar o conceito da engenharia como formuladora de soluções de problemas; e formar profissionais que, além de técnicos, sejam empreendedores.

Já Arnaldo Jardim resumiu sua percepção da abertura do encontro, à qual – como frisou – apresentará ao governador de São Paulo: “Aqui está nossa ‘Engenharia Unida’, não como intenção, mas como ação concreta, em um momento estratégico ao País, que pelas circunstâncias e fatos, nos coloca a tarefa de reconstruir a economia, as instituições, as referências e valores, bem como de reescrever parte do pacto social.”

Também saudaram o evento e manifestaram a intenção de colaborar e formar a coalizão proposta pela FNE o presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP), Vinícius Marchese Marinelli; Paulo Guimarães, presidente da Mútua Nacional – Caixa de Assistência dos Profissionais; Modesto Ferreira dos Santos Filho, coordenador do Colégio de Presidentes do Sistema Confea/Creas; Fernando Jardim Mentone, vice-presidente de relações trabalhistas do Sindicato das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco-SP); Jorge Luiz Alcalde, diretor regional da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp); Antonio Bestana Neto, secretário municipal de Meio Ambiente e Desenvolvimento de Barra Bonita, representando o prefeito Glauber Guilherme; os vereadores Eliseu Gabriel (São Paulo), Elias Chediek (presidente da Câmara Municipal de Araraquara), Edson Shimabukuro (Campo Grande), Luiz Antonio Moreira Salata (presidente da Câmara Municipal de Olímpia); José Roberto Cardoso, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP); Saulo Krichanã Rodrigues, diretor do Instituto Superior de Inovação e Tecnologia (Isitec); Antonio Octaviano, ex-presidente da FNE; Marcellie Dessimoni, coordenadora do Núcleo Jovem Engenheiro da federação; e o consultor sindical João Guilherme Vargas Netto.

Protagonismo

Ao fazer breve histórico das atividades da federação, Murilo ressaltou o lançamento em 2006 do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”, que “inspirou o governo Lula na elaboração e apresentação do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento)”. Ele observou que, tal como ocorre com o movimento “Engenharia Unida”, lançado em março último, o “Cresce Brasil” também nasceu numa conjuntura adversa. E apontou: “Podemos melhorar as coisas a partir das nossas lutas e ações.” Ele criticou a recente reorganização do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES), o chamado “Conselhão”, por parte do governo Temer, sem a inclusão da engenharia brasileira. “Como discutir o desenvolvimento sem o conhecimento dos nossos profissionais?”, questionou.

Vargas Netto lembrou que naquele mesmo dia, 25 de novembro, ocorriam manifestações unitárias em todo o Brasil contra a perda de direitos e pela retomada do desenvolvimento. “Barra Bonita nos põe em pé e ao lado dessa resistência”, destacou. E alertou: “O colchão social se esgota. Temos unidades da Federação mergulhadas na violência e na tragédia da falta de perspectiva.” Diante da enorme instabilidade, ele vaticinou: “O que nos une, move e agrega é a ‘Engenharia Unida’.”

O chamado foi reforçado pelo deputado Lessa, lembrando que é da natureza da engenharia fazer a transformação, enfrentar desafios e adversidades. E destacou aos presentes o lançamento recente da frente parlamentar mista, cujo intuito é garantir uma relação mais próxima entre o Legislativo federal e os profissionais da área tecnológica. “O Congresso é que tem a última palavra nas várias questões, precisamos ajudá-lo nisso. Precisamos colocar essas inteligências a serviço da sociedade.”

Para o presidente do Clube de Engenharia, Pedro Celestino, essa discussão deve partir da defesa intransigente da democracia. Outro tema levantado por ele foi o esvaziamento da Petrobras e a necessária unidade com o capital produtivo brasileiro para barrar o desmonte de empresas construídas ao longo dos últimos 60 anos.

Produção, não especulação

Ao enfatizar que nos últimos dois anos está instalada a maior recessão da história do País, o professor-doutor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Antonio Corrêa de Lacerda apresentou diagnóstico sobre o porquê desse quadro e qual a saída. “Essa situação se deve a uma série de fatores muito mais complexos do que o que nos chega de forma enviesada via grande mídia. Não só é consequência de erros inegáveis ao final do primeiro mandato e começo do segundo de Dilma, mas também a crise internacional precisa ser compreendida e explicada. A atual conjuntura está associada à desaceleração forte na China. O Brasil se tornou um grande exportador de commodities, e a queda da demanda global influiu negativamente. Tem-se também os impactos da Operação Lava Jato, que com todos os méritos de combater a corrupção, inviabilizou a Petrobras e grandes construtoras, com grande perda do patrimônio nacional, queda do emprego e da massa salarial.”

Somado a isso, Lacerda citou as políticas macroeconômicas adotadas desde o Governo FHC, que favorecem o rentismo, como taxas elevadas de juros e, em decorrência, do custo da dívida pública, hoje em R$ 500 bilhões ao ano. Outro problema, segundo ele, é o uso da política cambial como instrumento de curto prazo. “Barateia-se o dólar com a prática de juros elevados, mantendo-se o câmbio apreciado. Com isso, aumentam as importações, gerando desindustrialização, dependência tecnológica, perda de capacidade de produção com alto valor agregado e desnacionalização. A combinação do câmbio desfavorável com outros fatores, como a ausência de reforma tributária, penaliza o investimento.”

Nessa lógica invertida, é apresentada como solução a PEC 55. Lacerda foi categórico: “Vai aprofundar o desemprego, destruir a manutenção de políticas sociais e elevar a instabilidade. É uma anomalia sem precedente no mundo.” O professor da PUC-SP elencou os grandes erros concentrados na PEC em questão, entre eles não incluir os juros sobre a dívida pública; tratar todo gasto público como maléfico; e ignorar que “quem pode fazer a diferença em momento de crise é o Estado, investindo, gerando crédito e financiamento para tanto”. Na contramão disso, como acrescentou, coloca-lhe uma “camisa de força por 20 anos, engessando a gestão do orçamento no Legislativo e no Executivo, desconsiderando o crescimento populacional, a estrutura etária e o desempenho do PIB per capita”.

Na sua ótica, para colocar o País na rota do crescimento é crucial “substituir o bojo da política macroeconômica”. Seguem essa direção, como lembrou ele, propostas elencadas no projeto “Cresce Brasil”. Implica fortalecer o papel das políticas industrial, comercial e de ciência, tecnologia e inovação, retomar as inversões em infraestrutura e políticas sociais.

*Colaborou Rosângela Ribeiro Gil