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Incidente grave ocorrido em linha ferroviária em São Paulo expõe fragilidades da privatização no setor e reforça que serviços essenciais não podem ser tratados como laboratório de experiências. Segurança da população deve estar acima de interesses políticos ou econômicos.

CPTMImagemO grave incidente registrado na última quinta-feira (23/7), na Linha 12-Safira, na Cidade de São Paulo, é inaceitável sob qualquer perspectiva. Passageiros ficaram expostos a situação de risco grave após um incêndio em uma composição, sendo obrigados a abandonar o trem e caminhar pelos trilhos. Felizmente, não houve vítimas fatais. Mas o episódio deixa uma pergunta inevitável: e se o desfecho tivesse sido outro?

Não se trata apenas de falha operacional. Trata-se de um alerta sobre os riscos de conduzir a gestão de uma infraestrutura crítica sem que a engenharia ocupe o papel central que lhe cabe.

Os acontecimentos dos últimos dias mostram que a transferência da operação das linhas 11, 12 e 13 para a iniciativa privada está longe de ser a solução ideal, como a agência reguladora do setor, a Artesp, reconheceu, ao determinar o retorno da operação à CPTM por 90 dias, a transição não foi bem-sucedida.

Essa decisão, contudo, também suscita questionamentos. Se a solução para enfrentar uma crise é devolver temporariamente a operação à empresa pública, é legítimo perguntar por que se promoveu uma mudança que, poucos dias depois, precisou ser parcialmente revertida. Mais do que uma resposta emergencial, a população precisa de garantias permanentes de segurança, confiabilidade e qualidade.

Também merece ser rechaçada qualquer tentativa precipitada de transformar trabalhadores em bodes expiatórios. A própria direção da CPTM descartou a hipótese de sabotagem e ressaltou o profissionalismo de seus empregados, reafirmando que eventuais responsabilidades devem ser apuradas tecnicamente, com base em evidências, e não em especulações.

O transporte ferroviário metropolitano é um sistema de enorme complexidade do qual dependem milhões de pessoas para seu deslocamento diário. Sua operação exige planejamento, manutenção rigorosa, protocolos consolidados, conhecimento acumulado e equipes altamente qualificadas. 

Entre esses profissionais estão engenheiros que, há décadas, projetam, mantêm, modernizam e operam uma das maiores redes ferroviárias do País. Valorizar esse conhecimento técnico e garantir condições para que ele seja plenamente utilizado não é apenas uma questão corporativa. É uma exigência para proteger vidas e assegurar um serviço público eficiente.

A FNE e seus sindicatos filiados têm defendido reiteradamente que decisões sobre infraestrutura essencial sejam orientadas por critérios técnicos e pelo interesse público, e não por escolhas de natureza meramente política ou ideológica. A engenharia existe justamente para antecipar riscos, prevenir falhas e oferecer soluções consistentes para sistemas complexos, como o transporte sobre trilhos.

É fundamental que a investigação em curso esclareça as causas do incidente e que todas as responsabilidades sejam devidamente apuradas. Mais importante ainda é que dela resultem mudanças capazes de impedir a repetição de episódios semelhantes.

O momento exige menos discursos e mais engenharia. Porque, quando o assunto é transporte público, eficiência, confiabilidade e segurança não podem ser tratadas como variáveis de uma experiência. São compromissos permanentes com a população.