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Geógrafo explica que a soja foi introduzida de uma forma muito forte na região: “Nunca a tínhamos visto em áreas tradicionalmente de pecuária, e agora os cultivos estão entrando a partir da monocultura”

O geógrafo Roberto Verdum tem intimidade com o bioma Pampa. Começou a pesquisá-lo em 1985, no período em que cursava a graduação e era bolsista de iniciação científica. Em mais de três décadas, vem acompanhando as transformações da região, atento não apenas às questões geográficas, mas também às culturais, por se tratar de uma área determinante para a constituição da identidade dos povos que habitam o Pampa e, em sentido mais amplo, o próprio Rio Grande do Sul.

Nos últimos anos, a imprensa tem noticiado sobre a desertificação do Pampa. Verdum ressalta, no entanto, que o termo está equivocado, pois deserto pressupõe aridez. “No deserto tem que chover em uma faixa de 250 mm por ano. No Rio Grande do Sul, sobretudo nessa região, giramos em torno de 1.400 mm por ano. Deserto não é”, afirma em entrevista concedida por telefone para a IHU On-Line. A descrição correta do fenômeno refere-se a um processo de arenização, mas isso não é preocupante. O pesquisador explica que as manchas de areia observadas hoje são resquícios de uma história que remonta a no mínimo 4 mil anos, 5 mil anos.

A preocupação relativa ao Pampa provém de outra situação. A soja foi introduzida de uma forma muito forte no região: “Nunca a tínhamos visto em áreas tradicionalmente de pecuária, e agora os cultivos estão entrando a partir da monocultura”. O geógrafo afirma que não há nenhuma pesquisa sobre o tema, mas essas monoculturas são desenvolvidas à base de agrotóxicos. Assim, questiona: “Como estão as condições das águas do bioma Pampa? Não saberia dizer, porque não há um controle efetivo por parte do Estado. Acredito que aí também esteja havendo um processo de contaminação”.

A situação é preocupante porque o bioma Pampa guarda o aquífero Guarani, um grande reservatório subterrâneo de água de alta qualidade. “Por desconhecimento, estamos contaminando essa água a partir dos cultivos. É de extrema urgência se controlar essa possível contaminação da água”, garante.