O coordenador do Conselho Assessor de Transportes e Mobilidade Urbana do SEESP, Jurandir Fernandes, fala, nesta entrevista, das carências do País em termos de transportes e de como os profissionais da engenharia voltados ao setor são fundamentais, tanto na esfera pública quanto na privada. Apesar disso, o Brasil ainda não tem oferta adequada de cursos específicos de graduação. “São dois ou três apenas, o resto são especializações ou pós-graduação”, informa ele, que assumiu em 16 de maio último a Presidência da seção da América Latina da União Internacional de Transportes Públicos (UITP). A novidade, segundo Fernandes, é que está em fase de elaboração projeto que cria a graduação em Engenharia de Transporte na Faculdade de Ciências Aplicadas da Universidade Estadual de Campinas (FCA-Unicamp), campus Limeira.
Quais as dicas aos interessados em ingressar na área?
Ainda temos poucos cursos de formação específicos. Há disciplinas voltadas ao tema em cursos de engenharia, principalmente nas modalidades civil e mecânica. As entidades representativas do setor, como a UITP, possuem farta documentação bibliográfica ligada à mobilidade. No Brasil há também entidades e universidades com bons acervos técnicos e científicos sobre transportes. Estudar e se dedicar, procurar eventos ligados ao tema, ligar-se aos que são do ramo, tudo ajuda a formar um bom quadro técnico e político no setor.
Com as novas tecnologias, como o profissional deve se preparar?
Deve ter atenção às áreas ligadas à mecânica veicular e ferroviária, telecomunicações, automação e veículos autônomos, inteligência artificial, tratamento de grande volume de dados (big data), energias renováveis. Atenção total ao mundo digital, já que quase toda a população urbana possuirá um smartphone dentro de poucos meses aqui no País. O desenvolvimento de aplicativos já está mudando a mobilidade urbana.
Como é a atuação do engenheiro nesse setor?
Ele deve atuar na definição do projeto e de qual tipo de modal é o mais adequado ao número de passageiros que deve ser atendido. Será um sistema sobre pneus, trilhos? Em corredor exclusivo, subterrâneo, aéreo ou em superfície? Trata-se de um sistema formado por linhas troncais e alimentadoras? Deverão existir terminais de integração, onde, quantos? Isso é uma pequena amostra da fase de projeto, que ainda sofre fortes interferências das questões ambientais, das desapropriações necessárias, do ambiente político, bem como da aprovação da população local.
Temos boas perspectivas nesse mercado no Brasil?
As necessidades são imensas. O que nos paralisa são as crises econômicas e políticas que impõem descontinuidades nos investimentos em infraestrutura para o setor. O País carece de transporte urbano, rodoviário, portos, aeroportos e até mesmo de boas calçadas e ciclovias. Ou seja, mal resolvemos as coisas simples e de menor custo.
Rosângela Ribeiro Gil
Entrevista publicada, originalmente, no Jornal do Engenheiro, do Seesp, Edição 504, de junho de 2017