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No segundo dia da 72ª Reunião Anual da SBPC, pesquisadoras apontam o potencial econômico de produtos como óleos essenciais, alimentos e produtos farmacêuticos originários da floresta Amazônica

andirobaA árvore da qual é extraído o óleo de andiroba vive aproximadamente cem anos, começando a produzir depois de oito anos. Durante praticamente 92 anos, a andirobeira (Carapa guianensis) pode produzir esta que é matéria prima para produtos cosméticos e farmacêuticos de alto valor agregado, já utilizada na indústria, gerando renda e qualidade de vida por anos para centenas de pessoas na região Norte.

No entanto, cortada, a andirobeira vai proporcionar lucro uma única vez para uma ou algumas poucas pessoas. Queimada, gera zero riqueza.

Essa reflexão foi introduzida pela pesquisadora Noemia Ishikawa, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), à mesa redonda “Usos sustentáveis da biodiversidade Amazônica”, parte da programação da 72ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Coordenada pela diretora da SBPC e pesquisadora sênior do Inpa, Vera Maria Fonseca de Almeida e Val, a mesa contou ainda com as expositoras Vanderlan da Silva Bolzani, professora titular do Instituto de Química Campus Araraquara da Universidade Estadual Paulista (IQAr-Unesp) e Ima Célia Guimarães Vieira, pesquisadora do Museu Paraense Emilio Goeldi.

Noemia Ishikawa falou sobre um projeto de cultivo da andiroba para uso cosmético e fitoterápico desenvolvido sob sua coordenação na Terra Indígena Ewaré II (etnia Tikuna), na Comunidade Santa Clara em São Paulo de Olivença, município que fica a 975 quilômetros de Manaus. Iniciado em 2004, o projeto incentivou o plantio de cerca de 3,4 mil andirobeiras por cinco anos e este ano a produção de frutos gerou 110 mil litros de andiroba. “Esse é um exemplo da biodiversidade com a floresta em pé como defendemos no Inpa e como retorna para a sociedade”, afirmou Ishikawa.

“Quando pensamos em floresta amazônica pensamos em desmatamento, mas não pensamos nas populações e no manejo das áreas”, afirmou a agrônoma Ima Celia Guimarães Vieira que apresentou números sobre a contribuição da biodiversidade para a economia brasileira. “Os últimos dados do IBGE, de 2018, mostram que a produção extrativa gerou R$ 4,3 bilhões sendo que R$ 1,6 bilhão vem da produção florestal não madeireira”, afirmou.

Para além da relevância dos produtos não madeireiros para os povos e as comunidades tradicionais, há uma discussão recente sobre o uso sustentável de produtos como o açaí, um dos mais bem-sucedidos e conhecidos da floresta, tanto no mercado nacional quanto o internacional, contou Vieira.

Apoiado por incentivos fiscais e financeiros (Sudam e Banco da Amazônia), além de pesquisa cientifica e tecnológica (Embrapa), a produção de açaí baseada em extrativismo e manejo da floresta aumentou de 401 mil toneladas em 2006 para 478 mil toneladas mais recentemente. Porém, com o aumento da demanda tem havido a retirada de quase toda a cobertura vegetal da floresta de várzea para o adensamento da palmeira, o que resultou em muitas alterações que já são percebidos pelos ribeirinhos. “Esse processo que é chamado de ‘desmatamento verde’ ou de ‘açaização’, tem provocado já uma preocupação tanto em ribeirinhos como nos pesquisadores”, afirmou a pesquisadora do Museu Goeldi.

“Quando vemos a floresta queimar e os troncos serem destruídos, vem a pergunta: por quê um pais que tem essa riqueza estrondosa não consegue olhar para ela? ”, questionou a cientista Vanderlan Bolzani. Química premiada, membro do Conselho da SBPC e presidente da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp), Bolzani chamou a atenção para a necessidade de ampliar os investimentos em ciência e tecnologia para a compreensão e o melhor aproveitamento da biodiversidade brasileira.

“A biodiversidade é fonte de valoração muito grande de bens, além de trazer conhecimentos novos porque o que temos é muito menor do que podemos ter”. Para isso, diz Bolzani, são necessários recursos humanos e ciência de altíssimo nível que possa ser rentável ao país e melhorar a vida das pessoas com alta tecnologia.

No encerramento, a coordenadora da mesa redonda, Vera Maria Fonseca de Almeida e Val, reiterou a importância da pesquisa científica para o uso sustentável da biodiversidade. “Precisamos de empreendimentos, de uma cadeia produtiva mais bem organizada, mas o modelo não basta importar, temos que desenvolver o nosso próprio”, afirmou Val.

 

Jornal da Ciência