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Aconteceu na tarde de quinta-feira (25/6) o Workshop “Compartilhamento de postes e infraestrutura inteligente – Engenharia, segurança e inovação”.

workshop postesRealização conjuntamente pela FNE e o Conselho Assessor de Telecomunicações do Seesp, em parceria com o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de São Paulo (Crea-SP), o evento inédito e gratuito apontou a grave situação do desordenamento da infraestrutura aérea urbana nas cidades brasileiras, demonstrando que soluções de engenharia ao aprimoramento do setor existem; falta aplicá-las, com planejamento e investimento.

“Há muitos decretos e, às vezes, até por falta de fiscalização, as coisas não andam de acordo. Temos uma preocupação grande com segurança do trabalho e buscamos melhorias. Tem solução, desde que se trabalhe com engenharia e procedimentos”, atestou Marcius Vitale, coordenador do Conselho Assessor de Telecomunicações do SEESP, logo ao início.

Na abertura, Lourenço Campos Caiado, representante do reitor da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), destacou a importância do workshop para ajudar a compreender a situação e levar aos estudantes da faculdade o aprendizado trazido pelo evento. Já Edson Facholi, do Crea-SP, valorizou a cooperação sindicato-conselho para “estreitar relações e criar soluções”.

Tanto o presidente da Câmara Municipal de São Paulo, vereador Ricardo Teixeira, quanto o vice-prefeito da cidade, Coronel Mello de Araújo, observaram a importância de políticas públicas para fazer frente ao problema e se dispuseram a levar as contribuições do workshop respectivamente ao Legislativo e ao Executivo da Capital na busca de melhorias. Também à abertura, o auditor-fiscal do trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, Rodrigo Vaz, pontuou a essencialidade do evento voltado à engenharia e tecnologia nessa direção.

O presidente da FNE, Murilo Pinheiro, foi categórico: “Andando pelas ruas podemos dizer que São Paulo tem que melhorar muito. A discussão começa hoje, mas precisa ter resultados. Fala-se que enterramento de cabos é caro, mas a vida é que vale mais.” Frisando a importância de propostas factíveis a partir do workshop, destacou dentre elas que os agentes do setor compartilhem os custos desse investimento e que se garanta planejamento, no entendimento que acabar com o emaranhado de cabos e fios é bom para todos. “Que tenhamos coragem e determinação para ir em frente. A FNE estará sempre presente nessa discussão”, asseverou.

Desafios, oportunidades e soluções

Sob o tema “Tecnologias de compartilhamento de postes – Desafios, oportunidades e novas soluções”, o primeiro painel do workshop evidenciou as razões que explicam o desordenamento aéreo urbano e as questões a se fazer frente para reverter tal quadro.

Ricardo Elisei, CEO da Zuma RAE e membro do Conselho Assessor de Telecomunicações do Seesp, observou que o poste virou ativo estratégico ao longo do tempo, reunindo desde cabos elétricos até de telecomunicações, câmeras de monitoramento, internet 5G e “6G chegando”. “Não houve planejamento para esse crescimento nos últimos 20 e poucos anos. Assim, o sucesso da tecnologia passou pelo insucesso das redes de telecom”, lamentou.

Felipe Aguiar, especialista em Infraestrutura de Telecomunicações da Associação Brasileira das Prestadoras de Serviços de Telecomunicações Competitivas (Telcomp), lembrou que “o poste é insumo essencial; sem ele, não teríamos 90% do País atendidos por fibra óptica”. O problema, segundo afirmou, teve início ainda nas privatizações do setor no final dos anos 1990, com um grande número de empresas ocupando os postes e com dezenas de cabos. Faltam, acredita, regras claras e abrangentes, bem como dispositivos que “permitam o compartilhamento de forma adequada”.

Elisei complementou: “Não faltam normas, o problema é que não são cumpridas e não há padronização da engenharia.” Ademais, constatou a ausência de treinamento adequado aos trabalhadores, bem como de sistemas digitalizados e cadastros confiáveis que apresentem levantamento da rede disponível em todo o País.

Ao encontro disso, Aguiar mencionou a importância de uma base única que reúna todas as informações em âmbito nacional, citando processos em curso no Amazonas e em São Paulo. Ainda dentre os problemas, o especialista da Telcomp citou a falta de fiscalização contínua, o que permite que a infraestrutura aérea siga sendo ocupada por empresas clandestinas. E por fim a coordenação entre os agentes. “É preciso colocar todos em uma mesa para resolver”, indicou.

Líder de Engenharia e Relacionamento com as Concessionárias de Energia na Algar, José Edilson Graeff Borges mencionou entre os desafios a serem enfrentados o alto custo para transformação em rede subterrânea, que chega a ser dez vezes maior, além da aplicação de normas e garantia de contratos bem feitos ao compartilhamento dos postes.

Carlos Augusto Ramos Kirchner, consultor em telecomunicações e diretor do Seesp, trouxe como alternativa proposta já apresentada em nota técnica do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento – Cidades inteligentes”, iniciativa da FNE: substituir a rede obsoleta por rede compacta, com uso de cabos multiplexados, o que “reduz em 80% o desligamento de energia”. O uso da tecnologia disponível atende ao princípio da atualidade, que consta da Lei de Concessões, como ressaltou. Os palestrantes reforçaram ainda problemas regulatórios.

“Não tem bala de prata. É importante manter o debate em aberto e aplicar engenharia”, concluiu Elisei. Para Graeff, é necessário colocar as ações em campo, “criar um momento de convergência entre as concessionárias, com participação ativa do órgão regulador, e fazer os ativos se integrarem”. Apesar dos desafios de monta, Aguiar declarou ser otimista, afirmando que o ponto de partida é a padronização das regras. Defendeu, ainda, plano de atendimento aos postes “prioritários” – os mais críticos – para buscar melhorias. O painel teve mediação de Marcius Vitale.

Normas em vigor e necessidade de avanços

O segundo painel trouxe o grave problema a se fazer frente, com dados alarmantes das ocorrências em postes no País. Intitulado “Legislação – Normas em vigor e necessidade de avanços”, teve a mediação de José Manoel Teixeira, diretor do Seesp.

Diretor executivo da Associação Brasileira de Conscientização para os Perigos da Eletricidade (Abracopel), Edson Martinho apresentou as informações constantes do mais recente Anuário Estatístico da entidade: em 2025 foram catalogados cerca de 2.300 acidentes de origem elétrica no Brasil, dos quais mais de 1.300 decorrentes de incêndios em postes, com 60 mortes de um total de 700 ocorrências fatais no geral. “Os incêndios estão aumentando”, revelou, afirmando que tem uma séria situação de empresas que são constituídas “para fazer cabo com menos cobre”.

“Setenta por cento dos cabos ensaiados dos últimos anos estão fora de norma”, continuou. E um grave problema, já apontado no primeiro painel, é a falta de fiscalização contínua. Quando é feita, relatou, “fecham a fábrica e alugam em seguida um galpão duas quadras à frente”.

Se o quadro já é trágico, mais assustador é saber que as estatísticas apresentadas pela Abracopel, conforme Martinho, correspondem a algo como 50% dos dados reais, já que se baseiam em notícias – sem contar, como observou o diretor executivo da entidade, aqueles não registrados no DataSUS.

Dentre os profissionais atuando em área de telefonia da rede distribuída, ainda segundo ele, o registro dos últimos seis anos (2020 a 2025) indica 140 acidentes com 76 mortes – todos evitáveis, como sublinhou.

Para Rodrigo Vaz, os principais perigos no posteamento são o trabalho em altura e em instalações elétricas. Uma das agravantes, indicou, é a ampla terceirização no setor e o cenário conflituoso na estação de trabalho, o poste. Vitale acrescentou: “Cem por cento dos profissionais trabalham de forma não adequada em zona não controlada, a maioria sem treinamento.”

Segundo Vaz, na atualização da Norma Regulamentadora (NR) 10, que dispõe sobre segurança em instalações e serviços em eletricidade, houve aprimoramentos na questão da capacitação da mão de obra. “Não conseguimos eliminar a figura do capacitado, que começa no serviço sem ter tal qualificação, mas pelo menos foram definidas regras mais claras, inclusive quanto à responsabilidade do contratante e da empresa terceirizada contratada”, salientou.

Rafaela Barrotti Ussier, diretora da Conectarem – Consultoria em Riscos Psicossociais, trouxe ainda a questão dos riscos psicossociais como agravante – cujo gerenciamento pela empresa é obrigatório de acordo com a nova NR1. “Quando se tem o trabalho em campo, tem que levar em conta não só questões físicas, mas também psicológicas. O emocional afeta a concentração e atenção, isso precisa estar nos protocolos de segurança. O estresse, a exaustão podem colocar a vida do profissional e de outros em risco.”

Questão importante lembrada por ela é quanto a observar as condições de trabalho nesse sentido, verificando se o ambiente não traz tais riscos psicossociais, por exemplo mediante pressão constante por resultados, comunicação deficiente, assédio, desestrutura organizacional, dentre outros, para além de sintomas individuais. Assim, Ussier destacou a importância de atuar preventivamente, criando um ambiente laboral saudável, a partir de mapeamento por área, setor e atividade a ser incluído no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) previsto na NR1.

Novas soluções e recomendações

O último painel do workshop foi dedicado ao tema “Novas soluções e recomendações para a melhoria da gestão, organização e compartilhamento da infraestrutura de redes aéreas de telecomunicações”. Sob mediação do diretor do Seesp Renato Becker, o painel evidenciou o problema de governança no compartilhamento dos postes.

Marcelo Scacabarozi, gerente regional da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em São Paulo, observou que o cenário é caótico e até pior em pequenas cidades, mas que o órgão regulador está preocupado com isso e buscando providências. Segundo ele, são quase 20 mil provedores de internet no Brasil. “A Anatel criou coleta para saber quem está usando os postes. E a segunda medida foi um plano de ação de combate aos clandestinos, algo como 4 a 5 mil. Tem indícios inclusive de envolvimento do crime organizado, num modelo quase de milícia, o que envolve ação das autoridades policiais e do Judiciário.”

Neste ano, de acordo com ele, estão previstas 471 ações. “Noventa e uma já foram feitas, com 71 autuações.” Esse problema se deve ao fato de que, como explicou, até o ano passado era dispensada a outorga para pequenos provedores com até 5 mil acessos. De acordo com Scacabarozi, essa política pública foi saudável para assegurar que fossem atendidos alguns bairros e pequenas cidades em que não havia interesse do grande operador levar o serviço. “Não fosse isso, não teriam acesso a internet.” No entanto, essa liberação acabou por gerar como “sequela”, em suas palavras, o “descontrole do uso”. Apesar disso, o gerente da Anatel apresentou a expectativa de que o trabalho da agência em conter esse dano “vá render bons frutos nos próximos anos e que a Aneel [Agência Nacional de Energia Elétrica] vá nos apoiar em voltarmos a ter os postes de maneira organizada e com trabalho de engenharia”.

Helcio Binelli, diretor da Associação Brasileira de Empresas de Soluções de Telecomunicações e Informática (Abeprest) e do Deinfra Telecom da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), falou que há 11 anos o tema já era objeto de debates em workshop dessa entidade patronal. Na sua ótica, todavia, as duas agências (Anatel e Aneel) têm força suficiente para regular isso. Para Sidney Simonaggio, CEO da Simonaggio Soluções Empresariais, o modelo de negócios, contudo, está errado e precisa ser revisto.

André Luis da Rocha Abbade, gerente executivo do Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel Competence Center), defendeu que se atue com manutenção preditiva, no monitoramento da rede, não corretiva. Já Rogério Maraccini, diretor da ForenceNet Tecnologia, ratificou que a grande dificuldade está na governança. Assim, propugnou a criação de uma entidade administradora da infraestrutura aérea compartilhável, cuja necessidade foi reafirmada por Binelli.

Por fim, Vitale destacou o projeto em desenvolvimento juntamente com os engenheiros presentes de levantamento e diagnóstico por poste, utilizando o sistema Light Detection and Ranging (LIDAR), com o recurso da inteligência artificial. “É um negócio revolucionário, pronto para ir a campo.” Permitirá, como detalhou, fazer um raio X de toda a rede que servirá ao planejamento. “Temos oportunidade de fazer um projeto piloto para validar isso”, concluiu, evidenciando a solução de engenharia para um grave problema que se arrasta há tempos.

Assista aos três painéis do workshop na íntegra no canal do Seesp no Youtube.

Fotos: Abertura com a presença de autoridades. No púlpito, Murilo Pinheiro

Soraya Misleh