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Especialistas discutem os impactos ambientais, sociais e regulatórios da expansão dos centros de dados no Brasil em mesa-redonda da 78ª Reunião Anual da SBPC

datacenter uberlandiaA expansão dos data centers — infraestrutura essencial para a internet, a computação em nuvem e a inteligência artificial — transformou essas estruturas em um dos principais temas da agenda tecnológica brasileira. Ao mesmo tempo em que prometem atrair investimentos bilionários e impulsionar a economia digital, levantam preocupações sobre consumo de energia, uso intensivo de água, impactos socioambientais e soberania digital. Esses desafios foram debatidos na mesa-redonda “Impactos da instalação de centros de dados (data centers) no Brasil”, realizada nesta segunda-feira (27), durante a 78ª Reunião Anual da SBPC, que acontece de 26 de julho a 01 de agosto na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Hoje, os data centers instalados no Brasil atendem cerca de 40% da demanda nacional, enquanto aproximadamente 60% dos dados consumidos no País ainda são processados no exterior, segundo estimativas do Ministério da Fazenda e do setor. Para reverter esse cenário, empresas projetam ampliar em até cinco vezes a capacidade instalada, com investimentos que podem alcançar US$ 92 bilhões até 2031.

Soberania digital ou colonialismo tecnológico?

A expansão do setor ganhou impulso com a proposta do programa ReData, que previa incentivos fiscais para estimular a instalação de data centers no Brasil, mas perdeu validade no Congresso Nacional. Segundo Lucia Maria de Assumpção Drummond, professora do Instituto de Computação UFF e moderadora da mesa, o governo defendia que manter o processamento de dados em território nacional fortaleceria a soberania digital e reduziria o déficit da balança de serviços. “A proposta previa reduzir os custos operacionais das empresas para reter o processamento de dados no Brasil. Em contrapartida, elas deveriam destinar parte da capacidade ao mercado interno e investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação, contribuindo para o avanço tecnológico nacional”, resume a pesquisadora.

Para Lisandro Zambenedetti Granville, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e diretor-geral da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP), fortalecer a infraestrutura digital também significa fortalecer a ciência brasileira. “O Brasil já é um berço de inovação em diversas áreas tecnológicas e financeiras. Precisamos garantir que essa expansão também impulsione a pesquisa e a inovação brasileiras.”

Apesar desse potencial, especialistas alertam para o risco de o País assumir apenas o papel de fornecedor de recursos naturais para grandes empresas de tecnologia. O conceito de colonialismo digital descreve justamente esse cenário: o Brasil oferece energia, água e território para multinacionais, mas recebe contrapartidas limitadas em inovação, desenvolvimento tecnológico e benefícios sociais.

Energia, água e infraestrutura sob pressão

Além das discussões sobre soberania, crescem as preocupações ambientais. Os data centers operam ininterruptamente e consomem grandes quantidades de eletricidade, comparáveis às de cidades de médio porte. Também demandam elevados volumes de água para o resfriamento dos servidores, aumentando a pressão sobre os recursos hídricos, especialmente em regiões mais vulneráveis.

Para Lisandro Granville, esse cenário reforça a necessidade de ampliar a participação da comunidade científica nas decisões relacionadas ao setor. “Academia, governo, indústria, entidades de classe e a RNP precisam atuar juntos para construir soluções sustentáveis.”

Um dos projetos que mais mobilizam pesquisadores é o mega data center da ByteDance, controladora do TikTok, previsto para o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará. Com investimentos estimados entre R$ 55 bilhões e R$ 200 bilhões, o empreendimento pretende transformar o estado em um polo tecnológico da América Latina.

Segundo Antonio Mauro Barbosa de Oliveira, professor do Instituto Federal do Ceará (IFCE), uma instalação com potência de 300 megawatts exige enorme capacidade energética. “Se considerarmos a disponibilidade de energia, chegamos rapidamente ao limite de quantos grandes data centers poderiam operar. Por isso, a academia precisa participar dessas decisões.”

Para o pesquisador, o principal desafio é garantir que esses investimentos gerem benefícios duradouros. “O Ceará precisa converter capital, tecnologia e conhecimento em valor social, científico e ambiental.”

O caso Pecém e os impactos socioambientais

O consumo de água também desperta preocupação. Dan Rodrigues Levy, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lembra que os data centers da Amazon consumiram cerca de 2,5 bilhões de galões de água em 2025. “É um volume que mostra a dimensão do desafio para regiões onde a água já é um recurso sensível.”

No caso do Pecém, Dan Levy destaca que um data center de 300 MW pode consumir água em volume equivalente ao utilizado por cerca de 2,2 milhões de pessoas. Além disso, o empreendimento ocupará aproximadamente 70 hectares em uma região marcada por conflitos fundiários, remoções de comunidades e proximidade com áreas ambientalmente protegidas. “O Complexo do Pecém acumula impactos desde sua criação, na década de 1990. Agora, um empreendimento dessa magnitude se instala ao lado de unidades de conservação e em uma região com histórico de conflitos socioambientais”, pontua.

Segundo o pesquisador, organizações locais também questionam o processo de licenciamento ambiental. Entre as críticas estão a adoção de um Relatório Ambiental Simplificado em substituição a um Estudo de Impacto Ambiental completo, a ausência de consulta prévia a comunidades indígenas e a dificuldade de acesso às informações oficiais sobre o projeto.

Desenvolvimento com contrapartidas

As discussões também têm incorporado conceitos como justiça climática, racismo ambiental e transição ecológica, reforçando a necessidade de novos marcos regulatórios para o setor. Na avaliação dos especialistas, futuros programas de incentivo devem assegurar maior transparência, participação da comunidade científica e contrapartidas efetivas em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e proteção socioambiental.

Mais do que escolher entre atrair investimentos ou preservar o meio ambiente, o desafio é construir um modelo capaz de conciliar desenvolvimento econômico, soberania digital e sustentabilidade. Afinal, a infraestrutura que sustentará a inteligência artificial nas próximas décadas dependerá não apenas da capacidade computacional instalada, mas também das decisões políticas, científicas e ambientais tomadas hoje.

Confira a mesa-redonda na íntegra.

Chris Bueno – especial para o Jornal da Ciência