Vinícius Neder, Jornal da Ciência
O desenvolvimento sustentável da maior floresta tropical do mundo continuará entre as prioridades do segundo mandato da diretoria da SBPC, no período 2009-2011. Além disso, será mantido o foco em outras frentes, como a educação básica, o incentivo às relações entre universidades e empresa, e a melhoria do aparato legal de ciência e tecnologia.
Outro tema que estará na pauta da SBPC neste mandato é o desenvolvimento científico das ciências do mar. Segundo o presidente da SBPC, Marco Antonio Raupp, esse é um dos possíveis temas para a 62a Reunião Anual, em 2010, que será em Natal.
“A intervenção no mar gera tanto impacto quanto a intervenção na Amazônia. Estamos cada vez investindo mais em usar esses recursos do mar”, afirmou Raupp, exemplificando com o desafio de explorar petróleo na camada pré-sal. “Ao lado da Academia Brasileira de Ciências, estamos decididos a defender junto ao governo federal iniciativas especiais para o desenvolvimento da oceanografia no país”, completou, em entrevista coletiva na sexta-feira, último dia da Reunião Anual.
Manter a Amazônia entre as prioridades da entidade significa destacar a importância dos investimentos em ciência e tecnologia para o desenvolvimento sustentável da região. Na entrevista coletiva, Raupp retomou a sugestão, feita em seu discurso na abertura da Reunião Anual, de que o Brasil se transforme na primeira potência ambiental do mundo.
“Para promover o desenvolvimento econômico, precisamos sempre usar os recursos naturais. A SBPC coloca que a utilização dos recursos naturais tem que ser compatível com sua sustentabilidade indefinida. Esses recursos não podem ser dilapidados. O desafio da potência ambiental é manter o ambiente, conversar os recursos naturais, para poder utilizar-se deles indefinidamente”, afirmou Raupp.
Para isso, segundo o presidente da SBPC, há duas condições básicas. A primeira é investir na capacitação de recursos humanos voltados para ciência, tecnologia e inovação. Para isso, Raupp defendeu o investimento em pesquisadores locais.
“É muito mais fácil desenvolver capacidade de recursos humanos aqui na Amazônia do que importar gente de outros lugares”, disse Raupp, destacando a importância da cooperação com as políticas locais existentes. “O governo do estado do Amazonas tem há sete, oito anos, políticas claras, objetivas, que têm impacto bastante bom e são receitas para nossa atuação aqui”, exemplificou.
A segunda condição básica envolve a elaboração de políticas públicas capazes de oferecer as condições para o desenvolvimento sustentável baseado na ciência. “A ciência é um instrumento, mas as políticas públicas são decisões de governo que levam à utilização adequada desse instrumento. Ninguém acredita que só com ciência vamos resolver os problemas do nosso país. Temos que ter políticas públicas direcionadas, orientadas para a ciência”, completou Raupp.
Ao seu lado na entrevista coletiva, o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Adalberto Luís Val, lembrou que não existe país tropical desenvolvido. Assim, desenvolver o Brasil significa buscar informações desconhecidas e aplicá-las como conhecimento novo.
“Desenvolver essas informações sem ter referenciais significa muitas vezes navegar pelo completo desconhecimento. Este é o problema que temos na Amazônia: navegamos por situações completamente desconhecidas da humanidade”, afirmou Val, coordenador da programação científica da Reunião Anual em Manaus.
Segundo ele, as instituições de pesquisa e ensino produzem o conhecimento, mas sua aplicação depende das políticas públicas. “As intervenções na região dependem sim de informações precisas produzidas no centro das universidades e nos institutos de pesquisa, mas elas devem ser apropriadas pelos agentes, pelos sujeitos tomadores de decisão. As decisões não cabem, via de regra, às instituições que produzem essas informações”, completou.
Números
Durante a 61a Reunião Anual da SBPC, passaram diariamente pelo campus da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) cerca de 10 mil pessoas. As salas (com conferências, mesas-redondas, minicursos etc.) tiveram presença média de 2 mil participantes. Cerca de 15% dos autores de trabalhos inscritos não puderam apresentá-los, o que foi considerado positivo, pois o número ficou próximo da média de 12%. “Em termos numéricos, foi uma reunião de impacto”, afirmou o secretário-geral da SBPC, Aldo Malavasi.
O encontro teve 6.214 participantes oficialmente inscritos. Na avaliação de Malavasi, o evento de Manaus pode ser considerado de médio porte, em relação ao padrão das reuniões, mas com importantes impactos para o fomento da ciência e tecnologia da região.
O tom geral das saudações na cerimônia de encerramento da Reunião Anual foi de agradecimento a parceiros e elogios à cooperação. “Nunca saí de uma reunião com o sentimento de dever cumprido como estou saindo desta. Alcançamos plenamente nossos objetivos aqui”, resumiu Raupp, em discurso na cerimônia.
Participaram da mesa de encerramento, além de Raupp, as reitoras da Ufam, Márcia Perales, e da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), Marilene Corrêa da Silva; o diretor do Inpa, Adalberto Luís Val; o diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), Odenildo Sena; o secretário estadual de Ciência e Tecnologia do Amazonas, José Aldemir de Oliveira; e o secretário estadual de Educação, Gedeão Timóteo Amorim.
Os agradecimentos estenderam-se aos trabalhadores do evento, como alunos voluntários e professores da Ufam, além da equipe de funcionários da SBPC. Inúmeros foram os elogios à atuação da Polícia Militar do Amazonas. Aldo Malavasi afirmou que houve apenas uma ocorrência de furto. “Antigamente, nos anos negros, a polícia ficava fora do campus, pronta para invadir e nos retirar da Reunião Anual. Hoje, a polícia militar está dentro, ajudando a gente a organizar a reunião. São mudanças significativas. Como a democracia é boa”, comentou.