O chamado Mercado de Trabalho atual atravessa uma metamorfose estrutural sem precedentes, movida por uma convergência de forças que, embora pareçam operar em campos distintos, formam os pilares de uma nova e robusta economia global. Elementos como a Inteligência Artificial (IA), a Indústria 5.0, a Sexta Onda de Inovação e o modelo produtivo “Cradle-to-Cradle” (C2C) deixaram de ser meros termos de nicho para se tornarem a fundação de um novo ecossistema de produção e consumo.
Ao serem conectados de forma sistêmica, os pilares sugeridos exigem o surgimento de um "Novo Profissional", capaz de transitar entre a eficiência radical da tecnologia e o renascimento do valor humano. Caminha-se em direção à grande convergência da Indústria 5.0 e da Economia Regenerativa.
Inicia-se o ultrapassar de uma fronteira de transformação onde se dão os passos em direção à colaboração entre máquinas e seres humanos, redirecionando o capital global para a sustentabilidade e a biotecnologia. O mercado de trabalho, no cenário em observação, deixa de ser um campo de competição árida contra o autômato para se tornar um manifesto social, colocando o bem-estar e a ética no centro de toda a cadeia de produção de valor.
Na nova ordem que se institui, a IA deixou de ser uma ferramenta externa e acessória para se consolidar como uma colaboradora onipresente e, muitas vezes, invisível. A ascensão da “Prompt Engineering” (Engenharia de Prompts) exemplifica a correspondente disrupção (mudança), pois não é apenas uma técnica de escrita, mas a arte e a ciência de refinar instruções para guiar modelos de IA generativa em direção a respostas precisas e úteis.
Compreende-se que um “prompt” é, simultaneamente, a ponte e o caminho em linguagem natural que permite à máquina criar conteúdos e solucionar problemas complexos, explorando técnicas como exemplos, papéis específicos e o encadeamento de raciocínio lógico. O Profissional multiconectado, portanto, é aquele que sabe orquestrar as correspondentes plataformas para entregar projetos completos, agindo como um “maestro de algoritmos” que mimetizam a inteligência humana com o objetivo de executar tarefas e aprimorar-se frequentemente a partir das informações coletadas.
Contudo, a evolução em tela exige que o Profissional não seja um usuário passivo dado que deve compreender os princípios básicos que regem o “Machine Learning” e o “Deep Learning”. É fundamental entender que o aprendizado de máquina permite que computadores construam modelos analíticos de forma autônomos, enquanto o aprendizado profundo utiliza máquinas baseadas em redes neurais artificiais de múltiplas camadas para realizar tarefas complexas de reconhecimento de padrões.
Termos como Processamento de Linguagem Natural (PLN), que possibilita a interação entre humanos e computadores por meio da linguagem vernácula, e Visão Computacional, que ensina as máquinas a interpretarem imagens e dados multidimensionais, devem fazer parte da vida profissional sem gerar estranhezas. Mais do que o domínio técnico, exige-se uma visão crítica sobre o "Viés de Algoritmo" (aquelas tendências não previstas que aparecem nos resultados de uma IA e que podem levar a decisões imprecisas ou discriminatórias).
O novo Profissional deve estar atento, também, à ética e à segurança, garantindo que o progresso tecnológico não ignore a dignidade humana.
A ascensão do modelo “Skills-First” consolida a transição em andamento ao estabelecer que o sucesso profissional não pertence mais apenas a quem detém um diploma estático, mas a quem demonstra competências práticas verificáveis em tempo real. No passado recente, os títulos acadêmicos eram o peso fundamental de uma carreira; hoje, a prioridade reside naquilo que o profissional sabe fazer e como ele aplica esse conhecimento no dia a dia. O atual paradigma prioriza as habilidades práticas e competências demonstráveis de candidatos e colaboradores, tomando por base o saber fazer aplicado.
Paralelamente, o mercado de trabalho atual não busca mais apenas produtividade bruta, mas um "valor regenerativo" centrado na eficiência de recursos, energia limpa e saúde. Surge a necessidade de Profissionais que entendam o impacto ambiental de suas decisões técnicas, impulsionando o surgimento de "profissões verdes" que atuam na intersecção entre a tecnologia de ponta e a preservação ambiental.
Lado a lado com a Revolução Digital, a estrutura econômica global se reconfigura através da Indústria C2C e da Economia Circular. A transição do modelo econômico linear, baseado no ciclo predatório de extração, produção e descarte, para um modelo circular e regenerativo não é mais apenas uma opção ética, mas uma necessidade estratégica de sobrevivência. A posição “Cradle-to-Cradle” (“do Berço ao Berço”), em oposição à visão tradicional “do berço ao túmulo", fundamenta-se na premissa de que os recursos devem circular em ciclos contínuos de reutilização.
O modelo C2C baseia-se em três pilares fundamentais: a eliminação do conceito de lixo, onde todo subproduto é desenhado para ser nutriente de um novo ciclo; a manutenção de produtos e materiais em uso pela extensão máxima de sua vida útil; e a regeneração ativa dos sistemas naturais. Em várias regiões do mundo o movimento C2C ganha contornos concretos por intermédio de projetos de Inteligência Coletiva” que vinculam a Logística Reversa à obtenção de licenciamentos ambientais.
A Logística Reversa, aliás, é um dos braços operacionais mais críticos da Indústria C2C. Em conformidade com a Legislação vigente em diversos países pelo mundo se foca no retorno dos materiais ao setor empresarial para reaproveitamento em ciclos produtivos; reforçando a responsabilidade pós-consumo, tornando-a um pilar central da gestão industrial contemporânea.
O Profissional do futuro, portanto, precisa dominar conceitos como Simbiose Industrial e “Upcycle”, atuando como agente de mudança capaz de reformular processos para prolongar o ciclo de vida dos produtos. Embora a implementação plena da Indústria C2C em várias regiões do planeta enfrente gargalos significativos, como obstáculos fiscais que geram bitributação sobre produtos reciclados, a integração entre Inovação e Economia Regenerativa promete não apenas a preservação ambiental, mas, também, maiores lucros e redução de custos operacionais com descarte.
A Indústria 5.0 surge como a evolução necessária e humanista da era da automação total. Se a Indústria 4.0 focava na Internet das Coisas (IoT), na automação fria e na digitalização total, a Quinta Revolução Industrial promove a reconciliação entre homem e máquina por meio da “Human-Centricity”. O objetivo é produzir de forma mais inteligente e socialmente responsável, garantindo que as tecnologias sirvam às pessoas e não o contrário. O Trabalhador deve ser valorizado por sua capacidade de ajudar a organização a ser resiliente frente a crises climáticas e sociais, instaurando-se a era da "Resiliência Produtiva".
Cabe ressaltar que as empresas/indústrias não buscam apenas velocidade, mas a capacidade de resistir a choques externos mediante a instauração de design inteligente que garanta a abundância de recursos. As Tecnologias devem servir como assistentes para aumentar a capacidade cognitiva do Trabalhador, apoiando-se em Sistemas Ciberfísicos (CPS) e na Robótica Colaborativa, onde os “Cobots” trabalham lado a lado com humanos de forma segura e flexível.
No Ecossistema atual o trabalho é reestruturado por intermédio do modelo das "Tarefas 3C": Colaborativas, Criativas e de Custódia. As Tarefas Colaborativas atuam como a base da integração, onde Profissionais deixam de trabalhar em silos para atuar de forma multidisciplinar por meio de ferramentas de coautoria. As Tarefas Criativas representam o motor da inovação, focando no pensamento crítico e na resolução de problemas complexos que máquinas ainda não conseguem abordar por falta de consciência ética. Já as Tarefas de Custódia, ou Curadoria, funcionam como um filtro de qualidade em um mundo saturado de dados, organizando e protegendo o conhecimento que é verdadeiramente relevante. Este modelo propõe uma reestruturação profunda do fluxo de trabalho e da aprendizagem, priorizando competências humanas e inteligência coletiva em detrimento da mera reprodução de informações.
Diante de tamanha complexidade, o "Novo Profissional" deve portar um conjunto de sobrevivência composto por alfabetização em dados (“Data Literacy”), pensamento sistêmico e inteligência social. A figura do "Profissional Centauro", metade humano (com criatividade, ética e empatia) e metade máquina (dotado de processamento, agilidade e análise, torna-se o novo padrão de excelência.
Assim, para evitar a obsolescência tecnológica, a competência mais valiosa passa a ser o Quociente de Adaptabilidade (AQ). Enquanto o QI mede a capacidade de processar informações e o QE mede o gerenciamento de relações, o AQ mede a velocidade de reconfiguração de um indivíduo frente às mudanças. Ter um AQ elevado significa possuir flexibilidade cognitiva para desaprender processos antigos que a IA agora faz melhor e reaprender novas formas de aplicar o julgamento humano. Este profissional encara sua carreira sob o conceito de “Lifelong Learning”, entendendo que a Educação não é uma fase limitada da vida, mas um processo contínuo, voluntário e permanente.
A adoção da Indústria 5.0 e do modelo C2C representa um "novo mundo" para o parque industrial e para o mercado de serviços. A implementação de tais práticas exige uma reformulação urgente dos currículos acadêmicos de Engenharia e áreas correlatas, preparando os Estudantes para dominar a análise de ciclo de vida e a gestão de agentes autônomos. A transição para tal modelo econômico gera impactos positivos que transcendem o chão de fábrica, como a ultrapersonalização de produtos para atender às demandas de gerações (como Z e Millennials) que buscam bens alinhados com seus valores pessoais. Além disso, a produção sob demanda evita estoques parados e o desperdício de recursos naturais, respondendo diretamente aos desafios climáticos atuais. O Profissional que compreende semelhante dinâmica torna-se um articulador de sistemas complexos, sendo responsável por garantir que o progresso tecnológico não ignore os limites planetários e as necessidades sociais fundamentais.
No campo das habilidades comportamentais, as denominadas “Power Skills” ganham destaque ao combinarem o melhor das “Hard Skills” (competências técnicas) com as “Soft Skills” (habilidades interpessoais). Essas habilidades integradas permitem que o Profissional seja adaptável e altamente eficaz, impulsionando tanto o desempenho individual quanto o coletivo. Valoriza-se o colaborador que usa o pensamento crítico para questionar e refinar resultados automatizados, discernindo entre o que é uma solução tecnicamente viável e o que é apenas uma "alucinação algorítmica". O mercado atual recompensa a precisão e a preparação, rejeitando generalistas sem foco ou especialistas isolados. O esperado é um Profissional que consiga, com desenvoltura eficiente, conectar pontos entre diferentes áreas para gerar valor real, sustentável e ético.
Pode-se afirmar que a meta final da Indústria 5.0 e do Profissional que nela habita é o equilíbrio entre a produção eficiente e a resiliência sustentável, colocando o ser humano permanentemente no centro do processo. Ao abraçar a curiosidade intelectual e a ética digital, este novo protagonista da história econômica assegura que a tecnologia seja o motor de uma sociedade mais humana, equitativa e, acima de tudo, regenerativa.
O futuro do TRABALHO não é definido pela substituição, mas pela sinergia entre o discernimento humano e o poder computacional. A capacidade de "fazer mais com menos", utilizando a natureza como modelo e a tecnologia como alavanca, define o sucesso nesta nova era. “Ao final, o que resta é a compreensão de que o caminho para a prosperidade passa invariavelmente pela Inteligência Coletiva” e pela necessidade de transformar os resíduos de hoje na riqueza de um amanhã mais consciente e sustentável”.
Foto: Divulgação Dig Watch| CC
* Carlos Magno Corrêa Dias é professor, pesquisador, conselheiro consultivo do Conselho das Mil Cabeças da CNTU, conselheiro sênior do então Conselho Paranaense de Cidadania Empresarial (CPCE) do Sistema Fiep (atual Conselho de Responsabilidade Social do Sistema Fiep), líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Tecnológico e Científico em Engenharia e na Indústria (GPDTCEI) do CNPq, líder/fundador do Grupo de Pesquisa em Lógica e Filosofia da Ciência (GPLFC) do CNPq, personalidade empreendedora do Estado do Paraná pela Assembleia Legislativa do Estado do Paraná (Alep).

