“Nas urnas, alguém vence uma eleição. Mas o país só vence quando seus princípios democráticos, suas instituições e o respeito à vida saem fortalecidos”
Neste 15 de outubro, Dia do Professor, minha memória se volta à minha avó. No sertão, ela alfabetizava adultos, homens e mulheres que tinham passado a vida sem acesso às letras. Ela ensinava a ouvir, a aprender e, sempre, a partilhar.
Penso nela e em tantas professoras e professores que fizeram da educação um compromisso com o outro, muitas vezes sem reconhecimento ou condições adequadas. Educar é despertar perguntas, reconhecer a dignidade de cada pessoa e cultivar a esperança de que o futuro pode ser diferente. É pensando nessa herança que escrevo, porque há momentos em que o silêncio deixa de ser prudência e passa a ser omissão.
O Brasil atravessa um desses momentos. As eleições expõem mais do que uma disputa pelo poder. Revelam desigualdades persistentes, tensões nas instituições e uma preocupante disposição de transformar o medo, a intolerância e a mentira em instrumentos políticos. Em meio a tantas promessas e acusações, precisamos perguntar: que país estamos construindo e o que estamos dispostos a sacrificar nessa disputa?
A insegurança das famílias é real. A violência nas periferias é real. O custo de vida, as dificuldades de acesso aos serviços públicos e a falta de perspectivas para muitos jovens também são reais. A essas dificuldades somam-se relações pouco transparentes entre interesses econômicos e políticos e o distanciamento entre decisões públicas e necessidades da sociedade.
Os questionamentos recentes sobre a fiscalização do sistema financeiro, sobre os critérios de escolha de autoridades públicas e sobre a influência do poder econômico nas disputas parlamentares suscitam questões sobre integridade, transparência e responsabilidade institucional. Não se trata de antecipar julgamentos ou deslegitimar instituições. Trata-se de reconhecer que nenhuma relação de poder deve estar imune ao escrutínio público.
Tenho dedicado minha vida à universidade pública, à ciência e à construção de políticas de desenvolvimento. Como pesquisadora e gestora de ciência, tecnologia e inovação, aprendi algo fundamental: transformar a realidade exige conhecimento, planejamento, negociação, recursos e continuidade. Não existem atalhos mágicos. Conheci os limites da ação pública e os prejuízos provocados pela descontinuidade de políticas. Por isso, incomoda-me a facilidade com que se prometem soluções sem explicar como realizá-las.
Nestas eleições, a palavra pública parece ter perdido parte de seu compromisso com a verdade. É quase uma nova saga da mula sem cabeça: histórias ganham vida própria, circulam de boca em boca, atravessam as redes e, de tanto serem repetidas, encontram quem nelas acredite. Promete-se tudo: recursos sem origem definida, benefícios sem sustentação e soluções imediatas para problemas históricos. Quando as promessas não bastam, surgem acusações sem provas e informações falsas apresentadas como certezas. No folclore, a fantasia alimenta nossa imaginação; na política, pode comprometer decisões que afetam milhões de vidas.
A política admite propostas ambiciosas, divergências e escolhas difíceis. Mas quem promete precisa explicar como pretende cumprir. Quem acusa precisa apresentar provas. E quem deseja governar precisa respeitar a inteligência da população. Uma eleição não pode se transformar numa competição para descobrir quem promete mais e responde menos.
Espalhar inverdades, disseminar o ódio e explorar fragilidades sociais jamais poderá constituir um projeto de futuro. Pensemos em quem migra, deixando para trás sua terra, seus afetos e suas referências em busca de uma vida melhor; no indígena que sai de sua aldeia e enfrenta o desafio de preservar sua identidade em uma sociedade que nem sempre reconhece seus saberes; na pessoa negra que cresce sem encontrar sua história representada, numa sociedade que pouco valoriza suas origens. São vidas atravessadas por desigualdades, preconceitos e pela necessidade permanente de pertencimento. Transformar essas diferenças em ameaças ou instrumentos de disputa política é negar a riqueza humana que constitui o Brasil e fazer da vulnerabilidade do outro uma oportunidade de poder.
Também preocupa a naturalização de práticas autoritárias, independentemente de sua origem ideológica. O século XX conheceu, à direita e à esquerda, os perigos da concentração do poder, da fabricação de inimigos e da repressão à divergência. O autoritarismo não começa apenas quando as instituições são atacadas frontalmente. Avança também quando passamos a justificar a violência, o preconceito ou a supressão de direitos porque atingem aqueles de quem discordamos.
A Constituição de 1988 estabelece as bases de nossas liberdades. Isso inclui o Estado laico, o respeito às tradições religiosas e o direito de cada pessoa crer, não crer, pensar e viver sem discriminação. A democracia não se resume à vontade da maioria. Exige a proteção dos direitos individuais e o reconhecimento da pluralidade que constitui o país.
Nossa literatura ajuda a lembrar o que está em jogo. Em Morte e Vida Severina, João Cabral de Melo Neto nos conduz pelas faces da desigualdade, da sobrevivência e da dignidade. Cada encontro de Severino revela uma realidade social e uma pergunta sobre o valor da vida. A obra nos lembra que, por trás das grandes decisões, existem pessoas concretas, com necessidades, perdas, esperanças e direitos.
Talvez seja isso que estejamos perdendo quando transformamos a política numa disputa de torcidas. Amigos deixam de conversar, famílias se dividem e desconhecidos se hostilizam nas redes sociais. Deixamos de ouvir. Governantes devem ser criticados, suas decisões examinadas e eventuais irregularidades investigadas. Mas a crítica perde sua capacidade de esclarecer quando se transforma em ódio pessoal e nenhuma proposta merece ser examinada por causa de quem a apresenta. Não precisamos absolver o passado para reconhecer seus avanços, nem alimentar o ódio para exigir responsabilidades.
Uma eleição não é uma partida de futebol. Em campo, o apito final encerra a disputa. Na política, o resultado das urnas inaugura responsabilidades que alcançam milhões de vidas. Estão em jogo direitos, oportunidades, liberdades e o futuro de gerações.
Nas urnas, alguém vence uma eleição. Mas o país só vence quando seus princípios democráticos, suas instituições e o respeito à vida saem fortalecidos.
Importa cada vida, cada esperança que se perde diante da violência, da desigualdade ou da indiferença. Importa a família que se divide, a amizade que se desfaz, o jovem que deixa de acreditar no futuro e a pessoa que já não se sente reconhecida no país em que vive.
Ouvir, aprender e partilhar: o que minha avó praticava no sertão é também o que se espera da ciência. Hoje, à frente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, sinto ainda mais intensamente essa responsabilidade. A ciência não detém todas as respostas, mas sabe formular perguntas, confrontar evidências, reconhecer incertezas e corrigir erros. São atitudes indispensáveis à vida democrática.
Defender a ciência não é defender interesses corporativos. É defender a capacidade do país de compreender seus problemas e construir soluções. Como enfrentaremos as mudanças climáticas? Quem cuidará de uma população que envelhece? Como reduzir as distâncias entre as regiões? Como garantir saúde e educação de qualidade para todos? Que lugar o Brasil quer ocupar num mundo em que a soberania depende, cada vez mais, de ciência e tecnologia?
Como discutir o futuro do Brasil se gastamos tanta energia tentando restabelecer a verdade sobre o presente?
Cabe à ciência dialogar com a população, tornar o conhecimento acessível e participar da avaliação das políticas públicas. Não para substituir as escolhas democráticas, mas para que sejam feitas com informação, responsabilidade e liberdade. É com esse espírito que a SBPC mantém o Observatório das Eleições 2026, iniciativa suprapartidária que examina o que as candidaturas propõem para a ciência, a tecnologia e a educação. A boa política pública não se mede pelo tamanho da promessa, mas pela capacidade de melhorar a vida das pessoas.
Vejo com esperança a juventude nas ruas. É o sentimento novo que revigora e acende a democracia brasileira. Nossa história mostra que os estudantes foram protagonistas de importantes mobilizações democráticas, e hoje eles voltam a ocupar esse lugar. Que saibamos ouvir suas reivindicações, assegurar o direito à manifestação pacífica e repudiar a violência. Quem teme a juventude nas ruas talvez tema, na verdade, as perguntas que ela faz.
O Brasil não é uma abstração, nem pertence aos que disputam o poder. O Brasil somos todos nós: quem trabalha, estuda, pesquisa, ensina, cuida, produz e luta diariamente por uma vida melhor, muitas vezes sem jamais ocupar uma posição de poder. E merecemos respeito.
Defender a democracia não significa combater quem pensa diferente. Significa preservar o direito de todos continuarem pensando, vivendo e discordando em liberdade.
Volto à minha avó e aos adultos que ela alfabetizou no sertão. Ela ensinava que ninguém aprende sem antes ouvir, e que o que se aprende só ganha sentido quando é partilhado. Talvez seja essa a lição de que o Brasil mais precisa nestas eleições: ouvir antes de acusar, aprender antes de prometer, partilhar em vez de dividir.
O futuro do Brasil exige verdade e respeito. Não apenas pelas instituições que construímos, mas por cada vida que lhes dá sentido. Porque nenhum projeto de país merece esse nome se, para realizá-lo, precisarmos esquecer quem somos.
Foto: Jardel Rodrigues/SBPC
Francilene Procópio Garcia é presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)

