Brasil reúne algumas das maiores reservas mundiais de recursos essenciais à transição energética e às novas tecnologias. O desafio é transformar essa riqueza em indústria, conhecimento, empregos qualificados e desenvolvimento, evitando repetir o papel histórico de mero exportador de matérias-primas.
A crescente demanda mundial por minerais críticos e estratégicos abre ao Brasil uma oportunidade extraordinária. Terras raras, lítio, grafita, níquel e cobre são fundamentais à transição energética e à produção de equipamentos de alta tecnologia, como baterias, motores elétricos, turbinas eólicas e inúmeros componentes utilizados pela indústria moderna.
Nesse cenário, o País ocupa posição privilegiada. Segundo estudo recentemente divulgado pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), temos a segunda maior reserva mundial de grafita natural e de elementos de terras raras, estes últimos estimados em 21 milhões de toneladas. Somente entre 2026 e 2030, estão previstos US$ 20,5 bilhões em investimentos em minerais críticos no País, dos quais US$ 2,39 bilhões em terras raras.
Esses números são animadores, mas é fundamental definir que papel queremos desempenhar nessa nova economia. Podemos simplesmente ampliar a extração e exportar nossos recursos minerais ou utilizar essa vantagem para construir uma cadeia industrial e tecnológica robusta, capaz de gerar produtos de maior valor agregado, conhecimento e empregos qualificados.
A experiência internacional mostra claramente onde está o verdadeiro valor estratégico. Conforme dados da Agência Internacional de Energia (IEA), em 2024 a China respondia por cerca de 60% da mineração mundial das terras raras utilizadas em ímãs permanentes. Sua participação, porém, chegava a 91% nas etapas de separação e refino e a impressionantes 94% na fabricação de ímãs permanentes sinterizados.
Não é difícil perceber onde está o domínio decisivo. Possuir reservas minerais é uma vantagem importante, mas controlar as tecnologias necessárias para transformar esses recursos em componentes essenciais à indústria é o que assegura autonomia, competitividade e capacidade de participar dos segmentos mais dinâmicos da economia mundial. No atual contexto geopolítico, essa dinâmica torna-se também condição à garantia de soberania nacional.
Ainda segundo o estudo da Amcham, a expansão da produção com cadeias produtivas instaladas no Brasil pode propiciar, até 2050, impacto estimado sobre o Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 192,1 bilhões e geração de 750 mil empregos.
Esses dados reforçam proposta do projeto “Cresce Brasil + Engenharia + Desenvolvimento”: os recursos minerais estratégicos devem servir de alavanca a uma política de reindustrialização e desenvolvimento tecnológico. Isso significa avançar da extração e do beneficiamento para as etapas mais sofisticadas, chegando à produção de materiais avançados, ligas, ímãs permanentes, motores, geradores e equipamentos.
Para isso, será indispensável combinar investimentos produtivos com pesquisa, inovação, financiamento, infraestrutura, formação profissional e fortalecimento das instituições nacionais de ciência e tecnologia. E, evidentemente, assegurar que a exploração dos recursos minerais se dê com responsabilidade ambiental e social.
A engenharia brasileira tem papel central nesse desafio. Temos universidades, centros de pesquisa, empresas e profissionais qualificados. Precisamos transformar essa capacidade em política de Estado e aproveitar a atual janela de oportunidade para construir competências tecnológicas que permaneçam no País.
Temos diante de nós uma oportunidade estratégica. O que fará diferença para o futuro do País não será apenas quanto conseguiremos retirar do subsolo, mas sobretudo quanto conhecimento, tecnologia, indústria, trabalho qualificado e desenvolvimento seremos capazes de construir a partir dele.
É essa escolha que precisamos fazer agora.
Eng. Murilo Pinheiro – Presidente

