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Cresce Brasil

Para se tornar um país desenvolvido, o Brasil precisa enfrentar graves problemas. Entre eles, o baixo índice de esgoto tratado – apenas 37,9%, segundo dados do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento de 2009. Nesta entrevista ao Engenheiro, Galdino Santana de Limas apresenta sistema que inventou como promessa para transformar o quadro atual, rumo à universalização almejada. Ambientalista da Sisteg – Consultoria em Tratamento de Efluentes e do Centro de Pesquisas Ambientais, ele explica a inovação e assegura que a revolução pretendida seria feita com mais agilidade e injeção de menos recursos públicos.

O que o sistema de tratamento que o senhor desenvolveu traz de inovação?

Todos os sistemas existentes no mundo, inclusive de tratamento, são literaturas dos tempos de Cristo e até antes de Cristo, e os engenheiros e as companhias de água e esgoto vão praticando. Hoje não se admite mais isso, é preciso inovar. Para tanto, fizemos um estudo por mais de 40 anos, uma pesquisa bem pautada, bem consistente, para se trabalhar com quebra de moléculas e dos sais minerais que são ingeridos por seres vivos nos esgotos. Isso é o que causa o famoso lodo na estação de tratamento, que tem que ser removido, depois ser colocado em leito de secagem e então em aterros sanitários, porque é altamente contaminante. Para que não haja esse tipo de situação, a gente trabalhou com algumas cepas de bactérias no laboratório, tentando quebrar essas moléculas. O que conseguimos foi ter um esgoto tratado sem necessidade de manutenção nas estações de tratamento, porque não se gera lodo, a não ser para remoção de plásticos e outros materiais sólidos, que podem ser reciclados. Para se tratar, por exemplo, rios, lagos, afluentes, estudamos uma fórmula de manter esse tipo de micro-organismo com meio de suporte fixado numa estação tipo flutuante. Ou seja, a gente adiciona esse material enredado em plásticos e com boias que o segurem dentro do rio. É uma tecnologia nacional e pioneira.

Já vem sendo aplicada no País?

Estamos desenvolvendo projetos no Rio de Janeiro para o Canal do Cunha e, a partir deste final de ano, no rio e nos afluentes da Lagoa Rodrigo de Freitas, já estamos elaborando o projeto. E ainda, em alguns braços de rio de pequeno porte no Recife, são 19 canais. Vamos aplicar também em dois canais em Curitiba. Na cidade de Caldas Novas, estamos tratando águas de piscina que eram desperdiçadas. Agora, metade é inclusive reaproveitada para consumo humano, porque sai com potabilidade total. A economia do dono do empreendimento é muito grande. Fizemos um estudo em São Carlos, interior de São Paulo, que garantiu a certificação do nosso sistema. A partir do mês de setembro, também vai ser lançado um manual do saneamento com a nossa tecnologia, para fácil acesso e entendimento do processo pelos técnicos.

Que tipo de manutenção precisa ser feito, já que não gera contaminantes?

A única manutenção em estações de pequeno e médio porte deve ser a cada seis meses tirar os plásticos no desarenador, o que se faz em uma hora de trabalho. Nas outras estações, o processo tem que ser permanente.

Essa é a grande vantagem dessa tecnologia?

A grande vantagem é eficiência, comprovadamente acima dos parâmetros nacionais e internacionais. E também a economia na implementação e na manutenção. O investimento numa estação dessas atinge no máximo 30% dos valores totais das outras. E no preço final vai zerar, porque não vai ter manutenção.

Quer dizer que se poderia universalizar o tratamento de esgotos com muito menos recursos?

Acredito que com 20% do que se gasta hoje nisso daria para tratar o País inteiro e garantir uma vida de primeiro mundo para o povo brasileiro.

A que se deve essa economia?

À simplicidade da construção das ETEs (estações de tratamento de esgotos), à economia em energia elétrica, já que não usamos nenhum tipo de aeração ou injeção de oxigênio, porque o processo é feito através do micro-organismo. O material empregado na estação é o mesmo, alvenaria, concreto ou mesmo plástico, só que o período de retenção dos nossos sistemas dialógicos é de apenas quatro horas, enquanto o de uma lagoa de maturação é de 72 dias. Por isso, nossas ETEs têm tamanhos reduzidíssimos. Por exemplo, uma estação em uma universidade de Criciúma que trata esgoto para 13 mil alunos, 820 funcionários e oito laboratórios de pesquisa de carvão mineral tem apenas 30 metros quadrados. Num sistema convencional, teria que ter no mínimo um hectare e não sairia por menos de R$ 2,5 milhões. Com tudo colocado, funcionando, a nossa não chegou a custar R$ 50 mil.

E depois de tratado o esgoto?

A água pode ser descartada na rede pluvial, serve para reúso para lavar calçada, aguar planta, grama, tem uma série de utilidades, pode ser usada para se dar descarga quando se projeta um edifício com caixa separada, por exemplo, porque é lógico que não vai se pegar água de esgoto e misturar com a potável, mesmo que saia perfeita, é contra a lei.

Quanto tempo leva para ser implantada uma ETE dessas?

Pode ser implantada em duas horas, um, três, cinco dias. Em 30 dias daria para tratar uma cidade por exemplo como Joinville, Blumenau, Florianópolis.

Daria então para solucionar com mais rapidez e eficiência o problema de tratamento de esgotos no Brasil?

Acho que não só no Brasil, no mundo.

O que está faltando então? Como está essa negociação com os governos?

Estamos em negociação com várias companhias de água e esgoto. A Caern (Rio Grande do Norte) adotou nosso sistema com relatórios dos técnicos expostos em seu site comprovando sua eficiência. Estamos também tratando com a Agespisa, no Piauí, e com as companhias de Pernambuco e Santa Catarina. O que encalha é, na maioria dos casos, o lobismo. Mas, com todos esses entraves, começamos em 2002 e já temos mais de 2 mil ETEs espalhadas pelo País. (Soraya Misleh)

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