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Cresce Brasil

Entre outras interessantes mudanças do padrão demográfico do Brasil, uma está produzindo efeitos surpreendentes no mercado de trabalho. Até meados da década passada, a população de jovens com idade para trabalhar cresceu menos do que a população total. A consequência óbvia desse fenômeno foi a redução da fatia correspondente a esses jovens na população total. Nos últimos anos, a população com idade entre 18 e 24 anos vem diminuindo até em números absolutos. Ela chegou a 23,9 milhões de indivíduos em 2005 e,no ano passado, encolheu para 21,9 milhões.

A essa mudança do padrão demográficos e soma outra, a da idade mínima de ingresso no mercado de trabalho. Por razões que vão da melhora da renda das famílias – que reduz a urgência pela busca de emprego por seus membros – ao aumento do tempo de estudo dos jovens, a entrada no mercado é cada vez mais tardia. Assim,a oferta de emprego tende a ser maior do que a procura. Daí resulta um mercado de trabalho de aparente pleno emprego,mesmo em períodos de baixo crescimento da economia, como o atual.

Esse quadro gerará pressões por aumento da renda média. No futuro,os problemas de financiamento do sistema previdenciário poderão ser ainda maiores do que os atuais, pois,com a mudança demográfica e a melhora esperada das condições de vida, proporcionalmente haverá cada vez mais idosos. Mesmo que venha a enfrentar essas consequências no futuro, o País poderia conviver bem com esse fenômeno demográfico novo – e, de certo modo, precoce, pois ele costuma ser observado nos países com índices de desenvolvimento que o Brasil ainda não alcançou -, se não tivesse outros e mais urgentes problemas na área de trabalho e emprego.

A aceleração do crescimento, como observada em anos recentes- em 2010,por exemplo,o PIB brasileiro aumentou 7,5% -, invariavelmente despertou preocupações quanto à capacidade do País de crescer em ritmo intenso durante um longo período, como desejado. Além dos conhecidos gargalos de infraestrutura – portos, aeroportos, estradas, ferrovias, entre outros -mais um tem sido apontado como obstáculo ao crescimento contínuo da economia brasileira: a escassez de mão de obra qualificada.

A notável redução do ritmo de expansão da economia a partir do ano passado aliviou um pouco as preocupações,mas nem de longe foi suficiente para remover o problema do horizonte. Ele tem características estruturais, tem sido agravado pela imprevidência dos governos e pela baixa qualidade do ensino brasileiro e, pior, continua aguardando uma solução, que, mesmo sendo eficaz, só produzirá efeitos no médio e no longo prazos.

Há carência de trabalhadores adequadamente qualificados em diferentes áreas. A execução de grandes projetos de investimentos previstos para os próximos anos certamente tornará ainda mais aguda a escassez de mão de obra onde ela já é notável e a estenderá para outros setores. Pesquisadores de diversas áreas, professores, tecnólogos, engenheiros de praticamente todas as modalidades, gestores, profissionais da área de tecnologia de informação e especialistas da área de turismo estão entre os profissionais de nível superior cadavez menos disponíveis para contratação imediata.

Da mesma forma, profissionais de nível médio para áreas como construção, petróleo e informática são cada vez mais intensamente procurados por empresas, e cada vez menos disponíveis. Falta mão de obra especializada para projetos de construção civil,siderurgia, metalurgia,automação,telecomunicações, petróleo, entre outros.

Estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que, se crescer à média de 4% ao ano, para atender à demanda até 2020 o Brasil precisará formar anualmente 95 mil engenheiros. De acordo com a Associação Brasileira de Ensinode Engenharia, em 2010 foram formados 41 mil engenheiros,menos da metade do necessário.

É crescente o ingresso formal de trabalhadores estrangeiros no mercado brasileiro. São, de acordo com as estatísticas do Ministério do Trabalho e Emprego, profissionais com alto grau de especialização, mesmo os de nível médio, que vêm para trabalhar justamente nas áreas e nas regiões em que a carência de trabalhadores qualificados é cada vez mais aguda.

A crise nos países industrializados, nesse sentido, pode ser benéfica para o Brasil. Há dias, em encontro com empresários paulistas, o presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL) – responsável pelos grandes projetos de infraestrutura anunciados pelo governo -, Bernardo Figueiredo, observou que o Brasil deve aproveitar a difícil situação da Europa para ali recrutar profissionais bem formados em logística.

De fato, é uma medida oportuna, mas não resolverá a escassez de mão de obra especializada. É preciso formá-la aqui,em quantidade e qualidade crescentes.

Menos mal que o Brasil tenha sido considerado o país “mais dinâmico do mundo” na década passada no desenvolvimento de seu sistema educacional,de acordo com recente estudo da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).Mas continua ruim a posição do Brasil no que se refere à qualidade do ensinoem todos os níveis e à pesquisa.No ensino superior, ainda estamos longe do padrão dos países reputados pela qualidade da educação.

Dinheiro, nesse caso, não é tudo

“Melhorar a qualidade é um ponto crítico que ficou para trás”, disse ao Estado (12/9) o diretor adjunto da OCDE para educação, Andreas Schleicher. “Há indicações positivas de que a qualidade melhora, mas (o Brasil) precisa avançar muito mais.” A expressão “ponto crítico que ficou para trás”resume a des atenção dos responsáveis pelas políticas educacionais no passado recente. Foi um erro pelo qual se paga no presente – e que não pode ser repetido, para não com prometer o futuro.

Fonte: Jorge J. Okubaro/Estado de S. Paulo.

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