Arqueologia confirma Amazônia manejada há milênios e grandes cidades integradas à natureza. Terra preta, manejo de plantas e redes urbanas mostram a a Amazônia como obra indígena e guia para cidades resilientes
Por muito tempo, a Amazônia foi tratada como uma região “sem história, sem história humana, sem história indígena e um ambiente pristino”, afirma o arqueólogo Eduardo Neves, professor titular do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP) e um dos principais nomes da arqueologia amazônica no Brasil. Essa leitura, segundo ele, dominou o pensamento acadêmico e político sobre a floresta ao longo de boa parte do século 20. “Essa visão serviu de justificativa para vários projetos de desenvolvimento econômico catastróficos”, afirma.
Mayara Mariano, arqueóloga e pesquisadora Museu Paraense Emílio Goeldi, é responsável pelo estudo Tecnologias ancestrais para o bem viver em cidades da Amazônia, do LabCidade, reforça que essa imagem da Amazônia como espaço vazio e atrasado foi construída a partir de um discurso eurocentrado. “A nossa missão é desmanchar e mudar essa ideia vendida pelo eurocentrismo de que a Amazônia era um lugar inóspito, um lugar de escassez, um lugar difícil.”
Para ela, esse imaginário foi ativamente instrumentalizado pelo Estado brasileiro: “Esse discurso ideológico determinista de escassez foi muito utilizado no âmbito da ditadura militar mesmo, para ocupação desse território, para a propagação da violência contra os povos indígenas.”
O próprio campo científico colaborou com essa distorção. Neves lembra que, no século 19, os primeiros cientistas naturalistas que percorreram a região interpretaram a diversidade cultural como um traço negativo. “Eles achavam que essa diversidade era reflexo de um processo de degeneração. Associavam isso à condição tropical”, explica o arqueólogo. “Isso alimentou um colonialismo interno muito forte até hoje no nosso país”.
Mas essa narrativa começa a ruir à medida que novas evidências vêm à tona. Escavações realizadas nas últimas décadas ajudam a remontar o cenário Grande Amazônia antes da invasão europeia. Essas populações que somavam milhões de pessoas e falavam centenas de línguas diferentes, domesticavam espécies vegetais, produziam alimentos e modificavam o ambiente em larga escala.
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