Nesta quinta-feira (24), primeiro dia de trabalho do VII Conse (Congresso Nacional dos Engenheiros), uma constatação: modelos e conceitos ainda em voga nas áreas de transportes, energia e comunicações precisam ser superados. Isso é imprescindível para que o País não perca a oportunidade histórica que se apresenta neste momento, de se desenvolver com sustentabilidade e sair do patamar atual para outro em que assuma papel de destaque no mundo. Foi o que apontaram especialistas que compuseram a mesa que abordou o tema “Energia, transportes e comunicações”.
Tratando de um tema bastante complexo – transportes -, Ailton Brasiliense, presidente da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos), pautou sua fala em um exemplo extremo entre os grandes centros urbanos, cujas opções feitas levaram ao atual quadro caótico: a cidade de São Paulo. Não que o panorama em outros destinos brasileiros seja muito diferente, deixou claro. O foco escolhido, contudo, não poderia ser mais oportuno para revelar como se chegou a essa situação – e, a partir desse diagnóstico, indicar as saídas para sair dela. Brasiliense lembrou que, na metade do século XIX, São Paulo era uma microcidade, que tinha apenas 50 mil habitantes – ante 11 milhões atualmente. À época, como observou, um projeto de engenheiros liderado por Irineu Evangelista de Souza levou a que o município, na primeira metade do século XX, tivesse o maior parque industrial do Brasil e da América Latina: um desenvolvimento pensado sobre trilhos – o que resultou em uma malha de 100km. “Em 1930, havia mais ou menos 800 mil habitantes e emprego para todo o mundo. Essas pessoas moravam em um quadradinho de cerca de 8km por 8km.” A estruturação urbana baseada na ferrovia, pensada por Irineu Evangelista de Souza, foi desenhada pela Light. “A cidade era compacta, as viagens, curtas e a tarifa, baixa. Os poucos automóveis eram utilizados somente para passeio.” Conforme o presidente da ANTP, 95% dos deslocamentos motorizados eram feitos por transporte público, sobretudo pelos extintos bondes.
A partir de 1950, como destacou ele, o processo deixa de ser racional. Aumenta gradativamente o número de viagens por automóveis, começa a especulação no uso da terra e o modelo de cidade que crescia até então ao longo dos trilhos vai sendo completamente modificado. Áreas que deveriam ter sido preservadas foram ocupadas, a ferrovia fica estacionada em 130km e tem-se a prevalência do transporte individual sobre o coletivo. Como consequência, de acordo com Brasiliense, no início do século XXI, a frota de carros chega a 5 milhões e os paulistanos passam a conviver com uma média de 120km de congestionamentos. “O estímulo à compra do automóvel, o encarecimento da terra, um arrocho salarial brutal e uma cidade segregada levam ao modelo em que é difícil circular e, à medida que se alongam as distâncias, a velocidade dos ônibus fica menor e as tarifas, mais altas. O custo da energia nos transportes, com isso, é maior.” A deseconomia à cidade é brutal.
Frente ao quadro perverso, Brasiliense é categórico: “Temos que mudar tudo. Temos que pegar os parâmetros e reconstruir a cidade, atendendo às premissas social, ambiental, econômica, energética e urbanística.”
Diretor do Colégio Brasileiro de Altos Estudos da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Adilson de Oliveira salientou que também na área energética é fundamental pensar um modelo sustentável, “mais assentado nos biocombustíveis”. Ao lado da exploração do pré-sal, portanto, como ponderou ele, é necessário desenvolver as fontes renováveis. Na concepção de Oliveira, o País tem todas as condições de liderar o processo de transição energética global que se configura – saindo dos combustíveis fósseis para alternativas consideradas limpas -, e a grande oportunidade de criar nexos de integração regional e com o resto do mundo. Os engenheiros, concluiu, terão papel estratégico nisso.
Chamado à mobilização
Nas comunicações, em que se constata um modelo de negócios regido cada vez mais pelo mercado, Marcos Dantas, professor da UFRJ, também enxerga que é urgente superá-lo e resgatar a natureza pública dessa área, que tem influência sobre o cotidiano de todos os cidadãos. “A vida é pautada pelas comunicações, portanto, esse debate interessa ao conjunto da sociedade e deve ter sua participação.” Durante o VII Conse, a categoria foi, assim, chamada à discussão que se travará na I Confecom (Conferência Nacional das Comunicações). Não apenas porque se abordarão questões essenciais como conteúdo e financiamento no setor, mas também porque o novo cenário de convergência que se sedimenta no Brasil e no mundo e sua universalização têm tudo a ver com a engenharia, enfatizou o especialista. Até porque terá importância para revitalizar a indústria eletroeletrônica nacional, o que reverterá em empregos aos profissionais da área tecnológica.
Convocada pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, a conferência será realizada entre os dias 1 e 3 de dezembro próximo, em Brasília. “Apresentando propostas concretas para debate posterior no Congresso Nacional, é possível sair do evento com um saldo político positivo, acumulando forças para, em momentos futuros, se discutir o atual vazio legal nessa área.”
Confira cobertura completa do VII Conse aqui.
Autor: Beatriz Arruda