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Raquel Duaibs é doutora em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com estágio de pesquisa na Università di Bologna (Itália). Atualmente é professora na Faculdade de Tecnologia (Fatec), de Itaquera (SP), e tem se dedicado à Sociologia Industrial e do Trabalho, pesquisando principalmente sobre indústria 4.0, internacionalização produtiva, sindicalismo e cooperativismo. Nessa entrevista ao Engenheiro, ela aborda diversos aspectos relacionados da chamada indústria 4.0 – conceito que envolve a conectividade e a interação entre os domínios físicos, digitais e biológicos – a partir do ponto de vista do mundo do trabalho.

FNE - Como a era da digitalização industrial impacta as relações de trabalho? Quais os desafios do mundo trabalho associados a esse novo cenário?

Raquel Duaibs - A era digital já vem afetando, há bastante tempo, não só as relações de trabalho, mas as relações sociais de uma forma geral. Além do surgimento de novas formas de trabalho que já foram regulamentadas pela nova legislação trabalhista, como o teletrabalho, por exemplo, novos hábitos estão sendo incorporados e estão criando uma rotina de trabalho diferente. Hoje é possível monitorar ou gerenciar funcionários 24h por dia por meio de ferramentas como o Whatsapp, o que acaba extrapolando os limites do trabalho para fora do ambiente laboral.

Essa é uma cultura que vem sendo construída pelas empresas e que tem dado certo na maioria dos casos, porque os funcionários se sentem pressionados a demonstrar eficiência e acabam aceitando resolver problemas fora do ambiente e do horário de trabalho. A indústria 4.0 é uma consequência dessa era digital, e ela poderá transformar em grande medida as relações de trabalho em todo o mundo. Ainda é cedo para dizer quais serão as suas reais consequências e como elas ocorrerão em cada país, mas em um primeiro momento a ideia de implantação da indústria 4.0 é eliminar custos, principalmente aqueles relacionados à força de trabalho humana.

Como o processo de eliminação dos empregos já está ocorrendo, o grande desafio para o mundo do trabalho será se reinventar de modo que a sociedade consiga criar novas formas de trabalho ou de geração de renda em um contexto sem empregos. O conceito de “paraíso laboral” é uma ideia amplamente difundida e que vem sendo vendida junto com a indústria 4.0, mas na realidade ela está longe de ser colocada em prática, especialmente nos países que não estão liderando a corrida pelo desenvolvimento tecnológico de ponta, como é o caso do Brasil e da América Latina de uma forma geral. Em um cenário como o brasileiro, certamente as pessoas irão trabalhar menos, mas não porque existe uma estrutura social que viabilize a redução da jornada de trabalho sem a redução dos salários, e sim porque teremos uma massa de desempregados ou de subempregados muito maior do que a que existe hoje.

Essa mudança vem sempre associada à inteligência e desenvolvimento, o quanto isso realmente é verdade?

Estamos diante de uma revolução tecnológica, que não compreende apenas a indústria, mas também os demais setores. Quando falamos em tecnologia, automaticamente associamos esse termo aos conceitos de inteligência e desenvolvimento. E de fato há muito investimento em pesquisa e desenvolvimento direcionados à indústria 4.0. A questão que deveria ser pensada por toda a sociedade é como serão (e se serão) compartilhadas essas tecnologias e, consequentemente, os frutos do seu desenvolvimento. Se a maior parte das inovações e tecnologias que poderiam proporcionar o desenvolvimento social continuar restrita a quem tem condições de pagar por elas, como historicamente já vem acontecendo, a inteligência e o desenvolvimento propagados pelas inovações tecnológicas apenas continuarão contribuindo à desigualdade social.

Como o Brasil está em relação a esse movimento?

Existem algumas empresas brasileiras que estão investindo em pesquisas sobre a indústria 4.0, como é o caso da Embraer. Mas são poucas as empresas que de fato estão se dedicando a isso. O Brasil tem um histórico de industrialização tardia e a situação atual do desmantelamento da educação e da ciência mostra que não aprendemos nada com a nossa própria história. Para que um país possa liderar o desenvolvimento tecnológico em qualquer área, ele precisa, principalmente, de investimento público em ciência e tecnologia. Não há outra saída. Os países pioneiros no desenvolvimento da indústria 4.0, como a Alemanha e os Estados Unidos, são, não por acaso, os países que mais realizam investimento (público e privado) em desenvolvimento científico e tecnológico. Enquanto o Brasil não priorizar os investimentos em ciência e tecnologia como estratégia para o desenvolvimento econômico e social, continuaremos atrasados e subordinados ao desenvolvimento tecnológico oferecido por outros países.

Quais empregos estão sob risco com a chamada indústria 4.0?

Os entusiastas da indústria 4.0, em sua maioria empresários, defendem que estamos caminhando para uma sociedade na qual os empregos insalubres e repetitivos serão eliminados, oferecendo ao trabalhador a oportunidade de se requalificar e encontrar uma atividade que ofereça melhores condições de trabalho. Mas a realidade não é bem essa. Com o avanço da inteligência artificial, quase todos os trabalhos poderão ser facilmente eliminados. De metalúrgicos a vendedores, de professores a contadores, todos podem ser substituídos por máquinas, robôs e drones. Por isso o termo revolução tecnológica é mais adequado do que o termo revolução industrial, pois ele abrange todas as áreas e setores. Não é o trabalho industrial que está sob ameaça, é o trabalho humano. E essa é uma realidade que não tem mais volta, pois o desenvolvimento tecnológico não vai (e não deveria ser) freado. As únicas atividades que ainda não estão na iminência de serem eliminadas são as funções relacionadas aos cuidados humanos, especialmente aqueles voltados à saúde e ao cuidado de idosos.

As novas tecnologias e processos de gestão associados à indústria 4.0 significam uma sociedade com mais justiça social?

Depende. A indústria 4.0 pode, verdadeiramente, ser uma grande aliada para alcançarmos uma sociedade melhor e mais justa, pois ela é capaz de proporcionar uma estrutura social onde os indivíduos tenham efetivamente mais tempo para se dedicar à família e às realizações pessoais, e menos tempo ao trabalho, por exemplo. Mas isso vai depender de como cada país está se reestruturando para receber esse novo modelo de produção. A ideia da renda básica universal, por exemplo, é uma saída interessante, já que prevê o pagamento, pelo Estado, de um valor mensal para todos os cidadãos do país, com o intuito de garantir as necessidades básicas da população. Esta ideia está sendo discutida e colocada em prática com muita seriedade em alguns países, como a Finlândia, o Canadá e a Holanda. Alguns empresários do setor de tecnologia também defendem a renda básica universal, como Mark Zuckerberg, Elon Musk e Stewart Butterfield. No Brasil, essa ideia vem sendo defendida há anos por Eduardo Suplicy, mas sem grandes apoiadores capazes de colocá-la em prática. Se existir uma rede de proteção na qual a população consiga sobreviver havendo ou não empregos, a indústria 4.0 poderá proporcionar uma sociedade mais justa e igualitária. Caso contrário, consolidará a ampliação do desemprego, e irá acirrar ainda mais as desigualdades sociais e, consequentemente, a violência.

Quais os caminhos que temos pela frente e o quanto a sociedade pode intervir para definir esse futuro?

A revolução tecnológica é um caminho sem volta, e temos que estar atentos e conscientes sobre os seus impactos. É imprescindível que toda a sociedade discuta como e porque chegamos a esse patamar de desenvolvimento da tecnologia e quais serão as suas consequências, sejam elas boas e ruins. Eu vejo com frequência as pessoas difundindo os impactos positivos da revolução tecnológica, mas não as vejo debatendo as consequências negativas, e isso é um erro. É um erro porque não prepara a sociedade para o que está por vir, e a impede de cobrar do governo uma estrutura social que é necessária para receber esse novo padrão tecnológico de produção, como, por exemplo, uma legislação que regulamente o trabalho contemplando essas transformações, ou como políticas públicas de emprego e de transferência de renda. Os caminhos que temos pela frente terão que ser trilhados a partir de uma profunda discussão no interior da sociedade, envolvendo todas as esferas e considerando a opinião de membros de todas as classes sociais. É algo muito sério para ser decidido “de cima para baixo”. O desemprego irá existir. Mas como iremos nos preparar para ele?

 

Rosângela Ribeiro Gil
Redação FNE
Imagem da home reproduzida a partir do site Pixabay

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